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  1. São letras do alfabeto árabe. Deus iniciou com elas esta surata, para assinalar o mistério do Alcorão Sagrado, formado de letras idênticas àquelas com que os árabes formam os seus vocábulos, salientando com isso a incapacidade deles em produzir algo semelhante ao Alcorão. São também designativas de sinal de atenção, para que se ouça a recitação dos versículos.
  2. Deparamo-nos agora com uma terceira classe de pessoas: os hipócritas. São inverossímeis para consigo mesmos e, por isso, os seus corações são mórbidos (versículo 10). A morbidez tende a espalhar-se, como tudo o que é maléfico. Entretanto, isso é suscetível de cura; porém, se empedernirem os seus corações, logo estarão na categoria daqueles que deliberadamente rejeitaram a elucidação.
  3. A adoração é um ato de mais alta humildade, reverência e culto. Quando nos colocamos em comunhão com Deus, Que é nosso Criador e Guardião, a nossa fé evidencia obras de retidão, concedendo-nos uma chance; seremos nós capazes de exercitar o nosso livre-arbítrio e aproveitá-lo? Se o fizermos, toda a nossa natureza será transformada.
  4. Abundantes provas da benevolência de Deus são evidenciadas nestes versículos. Toda a nossa vida, material e espiritual, depende d’Ele. A espiritual é simbolizada pela abóbada celeste. A verdade foi trazida abertamente, perante nós. Resistiremos a ela, buscando falsas divindades, frutos da nossa imaginação? Pode ocorrer que as falsas divindades sejam ídolos, superstições, o ego, ou mesmo as grandes e gloriosas coisas, como a poesia, a arte e a ciência, quando atribuídas à semelhança de Deus. Pode ser que se trate do orgulho da raça, do berço, da riqueza, da posição, do poder, do aprendizado, ou mesmo do orgulho espiritual.
  5. Esta é uma antítese do versículo precedente. Se a labareda é o símbolo do castigo, o jardim é o símbolo da felicidade.
  6. "Mosquito", alcunha da língua árabe para a mais débil das criaturas. Na 29ª Surata, que foi revelada antes desta, foi usada "aranha", à semelhança de "mosquito"; e na 22ª Surata, há ainda a mesma semelhança em "mosca".
  7. Os significados literais em árabe, nesta passagem, são: Todos os nomes dos seres e das coisas", que muitos exegetas tomam como significando a natureza intrínseca dos seres e das coisas; e "coisas", aqui, incluiriam os sentimentos.
  8. A frase: "Todos se prostram, exceto Lúcifer", leva-nos a presumir que Iblis(Lúcifer) seria um dos anjos. Porém, o termo "anjos caídos" não é comumente aceito pela teologia muçulmana. No versículo 50 da 18ª Surata, Iblis é descrito como sendo um Jinn (Gênio).
  9. Seria o Paraíso um lugar nesta terra: obviamente não. Porque, segundo o versículo subseqüente, o 36, foi depois da Queda que a sentença foi pronunciada: "Na terra tereis residência a gozo transitórios". Antes da Queda, é de supor-se que o homem estivesse em outro plano – de felicidade, inocência, confiança, enfim, numa existência espiritual, onde imperava a negação da inimizade, prevalecia o desejo da fé, e de onde se bania todo o malefício. Talvez o tempo e o espaço também não existissem, e o Paraíso fosse algo alegórico, como a árvore. Esta não era a do conhecimento, porquanto foi concedido ao homem, naquele perfeito estado, um conhecimento mais pleno do que o que ele desfruta atualmente; era a árvore do mal, de cujos frutos ele ficou proibido, não só de comer, mas também de se aproximar.
  10. O decreto de Deus é o resultado da ação do homem. Note-se a transição (em árabe) do número singular, no versículo 33, para o dual, no 35, e para o plural, aqui, que indicamos, em português, por "descei". Evidentemente, Adão é o protótipo de toda a humanidade, e o sexo corre paralelamente todas as questões espirituais. Ademais, a expulsão aplica-se a Adão, a Eva, e a Satã, tendo-se em mente que o plural árabe é apropriado para qualquer número superior a dois.
  11. Assim como "nomes" do versículo 31 é usado para denominar a "natureza das coisas", "palavras", aqui, significa "inspiração", "conhecimento espiritual".
  12. Note-se a transição do plural "ordenamos", no princípio do versículo, para o singular "Meu", mais adiante; no mesmo versículo Deus fala de Si Mesmo costumeiramente na 1ª pessoa do plural, "Nós; é o plural de majestade, que também é aplicado na linguagem profana, em proclamações e decretos régios. Porém, quando é estabelecida uma relação especial e pessoal, o singular "Eu" ou "Me" é empregado.
  13. O argumento é dirigido aos judeus; porém tem aplicação universal, como têm todos os ensinamentos do Alcorão. A principal característica da adoração judaica consistia na prostração. Quanto ao zakat, significa pagamento, purificação e aumento, em vez que, mediante a pagamento de uma taxa fixa ao Estado, para ser usada em prol dos pobres e necessitados, o doador purifica a lama, ao mesmo tempo em que fatalmente terá os seus bens aumentados, pelas mercês de Deus. Constitui o terceiro pilar do Islam, e foi explicado pelos jurisprudentes muçulmanos, que descreveram as pessoas que são obrigadas a pagá-lo, bem como a quantia a ser paga.
  14. Isto ocorreu depois que os Dez Mandamentos, as Leis e as Ordenações foram instituídos, no Monte Sinai. Moisés foi chamado ao Monte, e lá esteve durante quarenta dias e quarenta noites (Êxodo 24:18). O povo, porém, ficou impaciente com a demora, e fabricou um bezerro de ouro fundido, dispensado-lhe adoração e sacrifícios(Êxodo 32:8).
  15. Pode ser que a alocução de Moisés esteja construída literalmente, ou seja traduzida, sendo que em ambos os casos reproduzem perfeitamente o Êxodo 32:27-28, mas de uma forma branda, porquanto o Velho Testamento diz: "passai e tornai pelo arraial de porta em porta, que mate cada um a seu irmão, e cada um a seu amigo, e cada um a seu próximo...e o número de pessoas, naquele dia, ficou reduzido de 3.000". uma versão mais humanitária afirma que houve uma ordem de escravização, por meio de julgamento, que foi retirada, porque Deus os perdoou. A palavra traduzida aqui por Criador (Bári) possui, também, um toque da raiz que significa "Libertador", termo este apropriado, com referência aos israelitas tinham sido libertados da servidão em terras egípcias.
  16. Maná – hebraico Man-hu, árabe Man-na. No Êxodo, 16:14, é descrito como "uma coisa pequena e redonda, igual a geada espargida pelo chão". Se deixado para o dia seguinte, ele geralmente se deteriorava, derretia-se à soalheira; a quantidade necessária para alimentar um homem era de aproximadamente um ômer, medida hebraica de capacidade, igual a cerca de 2,937 litros. Isto, segundo os hebreus, foi provavelmente distorcido, levados que são pelo tradicional exagero. O maná verdadeiro, encontrado presentemente na região do Sinai, é uma secreção gomosa e sacarina, que se obtém de certas secreções da tamargueira. É produzida pela punctura de uma espécie de inseto, igual à cochonilha, assim como a laca é produzida pela punctura de um inseto em algumas árvores da Índia. Quanto às codornizes, grandes bandos delas voam à deriva dos ventos do Mediterrâneo Oriental, em certas estações do ano.
  17. Provavelmente, refere-se a Cetim. Era a "cidade das acácias", bem a leste do Jordão, onde os israelitas eram afeitos à devassidão, à adoração de falsos deuses, bem como ao sacrifício a eles (Números 25:1-2 e 8-9). Desencadeou-se sobre eles um terrível castigo, incluindo a praga, em que morreram 24.000 pessoas. A palavra que os transgressores mudaram talvez se tratasse da palavra chave. No texto árabe é Híttatun e compreende a humildade e a oração pelo perdão, um emblema de luta para distingui-los dos seus inimigos.
  18. O jorro dos doze mananciais, provindos da rocha, evidentemente se refere à tradição local, próximo ao Monte Sinai, onde a Lei foi entregue a Moisés, há um enorme massa de granito vermelho de 3,50 m de altura por cerca de 15 m de circunferência, da qual brotam mananciais de água, em números de doze. Isso existia no tempo de Mohammad e ainda existe nos dias atuais, para que possamos contradizer qualquer opinião em contrário.
  19. A declinação da palavra Missr, no texto árabe, aqui, mostra que ela é considerada como um substantivo comum, com o significado de qualquer cidade, mais isto não é conclusivo, e a referência diz respeito ao Egito do Faraó,. O Tanwin, que em árabe expressa indefinição, pode significar "qualquer Egito", por exemplo, qualquer país tão fértil quanto o Egito.
  20. O Monte Sinai (Turi-sinnin), um destacado monte no Deserto da Arábia, na península entre os dois braços do Mar Vermelho. Foi aí que os dez Mandamentos e a Lei foram entregues a Moisés. Por isso é que se denomina de a Montanha de Moisés (Jabal Mussa). Os israelitas acamparam no seu sopé por cerca de um ano.
  21. O castigo pela violação do Sabath, aos olhos da lei mosaica, era a morte. "Guardai o meu Sábado, porque ele deve ser santo para vós. Aquele que o violar será castigado com a morte. Se alguém trabalhar neste dia, será desligado do seio do seu povo" (Êxodo 31:14). Deve ter havido uma tradição judaica acerca de toda uma comunidade pesqueira, em uma cidade litorânea, que persistia em violar o Sabath, sendo, por isso, os seus habitantes transformados em símios (ver a 7ª Surata, versículos 163-166). Ou deveríamos traduzir a passagem por "Sede como símios", em vez de "Sede símios"? Essa é a sugestão de Mohammad Áli sobre esta passagem, baseada na autoridade de Ibn Jarir Attabari. O castigo existiria, não pela violação do Sábado em si, mas pelo desafio contumaz por parte deles, à lei.
  22. No Deuteronômio 21:1-9, é estabelecido que se o corpo de um homem assassinado for encontrado no campo, e se o seu assassino for desconhecido, uma novilha deverá ser decapitada, e os anciões da cidade próxima ao domicílio do morto deverão lavar as suas mãos sobre o corpo dela jacente, jurando que não realizaram tal feito, nem presenciaram quem o fez, eximindo-se, assim, da culpa sanguinolenta. A narrativa judaica, baseada nesse fato, diz que em certos casos dessa espécie, todos tentavam livrar-se da culpa, atirando-a sobre os seus vizinhos. Primeiramente eles tratavam de prevaricar e evitavam que uma novilha fosse sacrificada, como no caso da última parábola, porque, quando ela fosse sacrificada, Deus, por milagre, descobriria a pessoa realmente culpada. Ordenava-se que uma posta de rês fosse colocada ao lado do cadáver, o qual volvia à vida e revelava toda história do crime.
  23. É um milagre realizado por Deus, por intermédio de Moisés. Posteriormente, foi permitido a Jesus fazer o mesmo.
  24. A argumentação imediata diz respeito aos judeus de Madina, mas uma argumentação mais generalizada diz respeito às pessoas de fé e àquelas sem fé, como veremos adiante. Caso os muçulmanos de Madina alimentassem a esperança de que os judeus, em suas cidades, e unanimemente, acolhessem Mohammad como o Profeta, preconizado nos seus próprios livros, estariam bem enganados. No Deuteronômio 18:18, lê-se: "Eu lhes suscitarei, do meio dos seus irmãos, um profeta semelhante a ti" (ou seja, semelhante a Moisés), o que foi interpretado por alguns do seus doutores como referindo-se a Mohammad, fazendo com que abraçassem o Islam. Os árabes constituem um ramo de família semítica, e são corretamente descritos, em relação aos judeus, como "seus irmãos"; e está fora de questão o fato de que não houve outro profeta "semelhante a Moisés" até ao aparecimento de Mohammad; pois, de fato, a pós-escrituração do Deuteronômio, escrito muitos séculos depois de Moisés, diz: "Não apareceu profeta algum, em Israel, desde Moisés, a quem Deus tenha mirado frente a frente". Porém, os judeus, como comunidade, estavam enciumados quanto a Mohammad, e desempenhavam um papel duplo. Quando a comunidade muçulmana começou a ficar mais forte, ele engodaram pertencer a ela, tentando, contudo, esconder dos muçulmanos qualquer conhecimento que possuíssem da sua própria Escritura, senão seriam derrotados por suas próprias argumentações. A interpretação mais generalizada põe-no bem em destaque, em todas as épocas. A fé e a descrença compadecem-se mutuamente. A fé tem de lutar contra o poderio, a organização e o privilégio. Quando ganha terreno, aparece a descrença, e insinceramente reivindica o compartilhamento. Mas Deus tudo conhece e, se as pessoas de fé apenas procurarem sinceramente o conhecimento onde puderem encontrá-lo, poderão derrotar a descrença,. Em seu próprio terreno.
  25. Bem diferente da espécie de compromisso, sugerido no versículo 80, o verdadeiro compromisso versa sobre a lei moral, aqui desenvolvida. Essa lei moral é universal e, se a transgredirmos, privilégio algum aliviará o nosso castigo, ou nos auxiliará de alguma maneira (versículo 86). A frase "Falai ao próximo com doçura" não somente significa que os líderes devem externar cortesia no trato com as pessoas mais comuns, mas ainda protegê-las contra a exploração, o engodo ou o entorpecimento, com qualquer ardil que lhes empane a inteligência.
  26. O Anjo Gabriel.
  27. Os judeus, em sua arrogância, poderão dizer: "Seja qual for o terror do Inferno, para outros povos, os nossos pecados serão perdoados, porque somos os filhos de Abraão; na pior das hipóteses, sofreremos uma punição leve e definida e, então, seremos restabelecidos ao ‘seio de Abraão’". E é aqui que o pavio da bomba começa a arder. Comparar este versículo com os versículos 81 e 82 desta.
  28. Depois que os Mandamentos e a Lei foram entregues a Moisés, no Monte Sinai, e o povo assumiu solenemente o Compromisso, Moisés subiu ao Monte e, em sua ausência, o povo fabricou o bezerro de ouro. Quando Moisés voltou, ficou exacerbado: "Ele pegou o bezerro, que eles haviam feito, e o queimou no fogo e o reduziu a pó, no chão, e lançou as suas cinzas à água, e fez com que os israelitas bebessem dela." (Êxodo, 32:20)
  29. Uma parte do judeus, no tempo de Mohammad, ridicularizava a crença muçulmana de que o Anjo Gabriel trouxera as revelações ao Profeta. Miguel era denominado, em seus livros "o grande príncipe, que veio em defesa dos filhos do teu povo" (Daniel 12:1). A visão de Gabriel inspirava temor (Daniel 8:16-171). Porém, esta afirmação – de que Miguel era amigo deles e Gabriel era inimigo deles – constitui meramente uma manifestação de sua descrença nos anjos, nos mensageiros, e no Próprio Senhor. Em todo caso, constitui insensatez dizer-se que eles acreditavam em u manjo e não acreditavam nos outros.
  30. Este versículo tem sido interpretado diversificadamente. Quem eram Harut e Marut? Que ensinavam eles? Por que o ensinavam? O ponto de vista que se apresenta plausível, a nós, é o do Tafsir Haccani, segundo Baidhawi, e o do Tafsir Alcabir. A palavra "anjos", aplicada com respeito a Harut e Marut, é conotativa. Significa "homens benévolos, de conhecimento, de ciência e de poder".
  31. A palavra criticada é Ráina, que, empregada pelos muçulmanos, significa "digna-nos com a tua atenção". Contudo, era ridicularizada pelos inimigos, pois, com uma leve distorção, apresentava um significado insidioso. A outra palavra, sem ambigüidade, é Anzurna, que tem o mesmo significado ("digna-nos com a tua atenção"). A doutrina geram consiste em que devemos nos resguardar do truques cínicos, de usos de palavras que soam como elogio aos nossos ouvidos, mas que, no fundo, encerram aguilhões. Não somente devemos ser concisos nos nossos termos, mas também ouvir respeitosamente as palavras do Mestre a quem nos dirigimos. As pessoas imponderadas usam palavras vãs ou suscitam questões tolas e, inadvertidamente, fazem digressões.
  32. A palavra que traduzimos por "versículo" é Áiat. Ela não é usada somente para os versículos do Alcorão, mas, de um modo geral, para todas as Revelações de Deus, como no versículo 39 desta Surata, e para outros Portentos Divinos na história da natureza, ou para os milagres, como no versículo 61 desta Surata. Ela tem sido ainda empregada nas demarcações e nos símbolos de prodígios humanos como, por exemplo, em monumentos e obeliscos erigidos pelo antigo povo de Ad (versículo 128 da 26ª Surata). Qual é o seu significado, aqui? Se nos apegarmos ao sentido generalizado, significará que a mensagem periódica de Deus é sempre a mesma, podendo diferir, porém, na sua forma, de acordo com as necessidades e as exigências da época. Tais formas, como as que foram apresentadas a Moisés, depois a Jesus e depois a Mohammad, diferiam umas das outras. Alguns exegetas aplicam-na, também, ao versículo do Alcorão. Nada há de degradante nisto, uma vez que acreditamos na revelação progressiva. No versículo 7 da 3ª Surata, é-nos distintamente ilustrado que, no Alcorão, enquanto alguns versículos são fundamentais, outros ao alegóricos; assim sendo, é prejudicial levarmos em consideração os versículos alegóricos e os seguirmos ao pé da letra. Por outro lado, é absurdo considerarmos versículos, como o número 115 desta Surata, como se fosse ab-rogado pelo número 144 da mesma Surata, ao se referir à alquibla. Nós voltamos o rosto para o Levante, sem contudo crermos que Deus esteja num só lugar. Ele está em toda parte.
  33. Três palavras são usadas, no Alcorão, com o significado aproximado de "perdoar", mas cada uma com um matriz diferente. ‘Afa (aqui traduzida por "perdoar") significa esquecer, obliterar da mente. Safaha (aqui traduzida por "tolerar") significa ser diferente, tratar de um assunto como se ele não afetasse a pessoa em nada. Ghafa-ra (que não aparece neste versículo) significa contrabalançar algo, como faz Deus, com a Sua graça, em relação aos nossos pecados; esta palavra é especialmente apropriada para um dos atributos de Deus, Ghaffar, ou seja, Indulgente.
  34. Trata-se, virtualmente, dos idólatras em Makka, que tentavam impedir os árabes muçulmanos de entrar em Caaba, local universal de adoração árabe. Os próprios idólatras a denominavam a Casa de Deus. Com que propósito iriam eles excluir os muçulmanos, que queriam cultuar o Verdadeiro Deus, em vez dos ídolos? Se aqueles idólatras tivessem logrado sucesso, teriam causado violentas dissensões entre os árabes, e destruído a inviolabilidade e a própria existência da Caaba.
  35. Ou seja, estarás perante Deus em qualquer direção que te virares.
  36. É uma derrogação da glória de Deus – de fato, constitui blasfêmia – dizer que Ele gera filhos, como um homem ou um animal. A doutrina cristã é aqui enfaticamente repudiada. Se as palavras têm significado, seria a atribuição a Deus, de uma natureza material e de funções dos ínfimos animais. Num sentido mais espiritual, nós todos somos filhos de Deus.
  37. O sentido principal de Imam é o de "ser primordial"; consequentemente, pode significar: líder religioso; líder em orações em congregação; modelo, padrão, exemplo; um livro de orientação; um livro de evidência e registro. Aqui, os significados de líder religioso, modelo, padrão e exemplo, estão implícitos.
  38. A Caaba é a Casa de Deus. Sua fundação remonta, pelas tradições árabes, aos tempos de Abraão. A sua forma cúbica refere-se aqui a: era o centro espiritual, ao qual todas as tribos árabes convergiam, para o exercício do comércio, para a disputa dos torneios poéticos e para a prática da adoração; era um território sagrado, respeitado, tanto por amigos, como por inimigos. Em certas épocas todas as lutas eram, e ainda são, proibidas dentro dos seus limites, e mesmo as armas não podiam ser carregadas, e tampouco caça alguma podia ser morta. A exemplo das cidades de asilo, sob o domínio judaico, nas quais o homicidas se podiam refugiar (Números 35:6), ou dos santuários da Europa medieval, nos quais os criminosos não podiam ser perseguidos, Makka foi reconhecido pelos costumes árabes como invioláveis às perseguições, às vinganças e à violência; era um local de oração; ainda hoje há a Estância de Abraão dentro dos seus limites, onde se supõe que ele orou; deve-se conservá-la pura e sagrada, para todos os propósitos. Embora o versículo, em sua totalidade, seja expresso na 1ª pessoa do plural, a Casa é chamada de "Minha Casa" (1ª pessoa do singular), para enfatizar a relação pessoal do Único e Verdadeiro Deus, e repudiar o politeísmo, que a degradava, antes de ser novamente purificada por Mohammad.
  39. Quatro rituais são, aqui, enumerados, os quais adquirem, agora, os seguintes significados técnicos: circungirar o sagrado território da Caaba (Tawaf); retirar-se para aquele local de remanso espiritual, para contemplação e oração (I’ticaf); inclinar as costas em oração (Ruku’); e prostrar-se no chão em oração (Sujud). A proteção do território sagrado é tarefa de todos, sendo que uma higienização e purificação especiais são requeridas, para o bem dos devotos que empreendem esses rituais.
  40. O território que circunda Makka é estéril e rochoso, comparado, digamos, ao de Taif, cidade que fica 85 km a leste de Makka. Uma oração pela prosperidade de Makka, portanto, inclui a oração pelas boas coisas materiais da vida. Este é o significado literal. Todavia, note-se que a oposição, neste versículo, situa-se entre os frutos do Jardim, para os virtuosos, e o tormento do Fogo, para os maléficos – uma alegoria espiritual de grande força e persuasão.
  41. A totalidade dos israelitas é chamada a testemunhar sobre um dos slogans, de que eles adoravam: "o Deus de seus pais". A idéia, em suas mentes, restringia-se à de um deus tribal. Entretanto, é-lhes rememorado que os seus antepassados possuíam, do leito de morte é descrita na tradição judaica.
  42. Hanif, em árabe. Esta palavra inclinava-se à oposição certa, ortodoxa (no significado literal), firme na fé, sadia e firmemente equilibrada, que crê em um só Deus (monoteísta). Talvez a última palavra, monoteísta, sumarie todos os outros matrizes. Os judeus, embora orientados quanto à Unicidade, procuraram falsos deuses, e os cristãos inventaram a Trindade ou a copiaram da idolatria. Nós, por nosso turno, voltamo-nos para a pura doutrina de Abraão (hanif), para vivermos e morrermos na fé em um Deus Uno e Verdadeiro.
  43. Eis aqui o verdadeiro credo do Islam: acreditar no único Deus Universal, na Mensagem que nos chegou através de Mohammad, nos sinais interpretados à base de responsabilidade pessoal, na mensagem revelada a outros profetas do passado. Estes tópicos são mencionados em três grupos: Abraão, Ismael, Isaac e as tribos (destes, Abraão tinha aparentemente um livro –versículo 18 da 87ª Surata -, e outros seguiam sua tradição); Moisés e Jesus, cada um deles deixando uma escritura (tais escrituras existem até hoje, não obstante não se apresentarem na sua prístina forma); outras escrituras, outros profetas e outros mensageiros de Deus (não especificamente mencionados no Alcorão – versículo 78 da 4ª Surata). Não fazemos distinção entre qualquer um desses. Sua mensagem (no essencial) foi uma só, e isso constitui a base do Islam.
  44. Estamos aqui na trilha daqueles que seguem a única e indivisível mensagem do Deus Único, sempre que outorgada. Se outros a empanam ou a conspurcam, são eles que abandonaram a fé e criaram a dissensão ou cisma. Porém, Deus vê e conhece tudo. E Ele velará pelo que é Seu, e o Seu apoio será infinitamente mais precioso do que qualquer apoio que o homem possa dar.
  45. Sibghat, em árabe, com seu significado radical implica matização, coloração, e também significa religião, criação. Assim como a matização e a coloração dão um toque de distinção aos objetos que se prestam a esse expediente, também a nossa vida adquire um novo viço, com a verdadeira Religião de Deus.
  46. Quibla quer dizer a direção, ou seja, o locam para o qual os muçulmanos voltam os rostos ao orarem. O Islam imprime grande importância à oração em congregação, dando destaque à nossa fraternidade universal e cooperação mútua. Para que a oração seja devidamente efetuada, a ordem, a pontualidade, a precisão, a postura simbólica e a direção comum são essenciais, resultando que o Imam e toda a sua congregação possam olhar numa única direção e dirigir as suas súplicas a Deus. Nos primórdios, antes de sua organização como povo, os muçulmanos seguiam como símbolo de sua quibla a cidade sagrada de Jerusalém, sagrada tanto para os judeus como para os cristãos, os Adeptos do Livro. Isto simbolizava o seu devotamento às Revelações de Deus. Ao serem desprezados e perseguidos, retiraram-se de Makka e alcançaram Madina. Mohammad, sob inspiração Divina, principiou a organizar seu povo como nação, povo independente, com leis e rituais próprios. Naquela altura a Caaba foi estabelecida como quibla, que voltou assim ao centro primitivo ao qual o nome de Abraão estava ligado, e tradicionalmente, também, o nome de Adão. Jerusalém permaneceu (e permanece) sagrada aos olhos do Islam, devido ao seu passado; mas como o Islam é uma religião progressista, seu novo simbolismo possibilitou-lhe desvencilhar-se das tradições de um passado remotíssimo, e insinuar-se por uma era de liberdade irreprimida, dileta ao espírito da Arábia. A mudança teve lugar cerca de 16 meses e meio depois da Hégira. A quibla de Jerusalém, por si só, deveria Ter parecido igualmente estranha, mormente depois que se haviam acostumado à outra. Em verdade, uma direção ou outra, a Leste ou a Oeste, não importaria, uma vez que Deus está em todos os locais, e independe de tempo e lugar. O que importava era o senso de disciplina, ao qual o Islam imputa grande destaque.
  47. Nação do centro. A essência do Islam, é evitar todo tipo de extravagância em qualquer lado. É uma religião simples e prática. A palavra árabe (wasat) tem também o significado de intermediária.
  48. Isto demonstra o sincero desejo de Mohammad de procurar a luz do alto no que dizia respeito a quibla. Até à organização de seu próprio povo numa comunidade sólida, com suas leis e regulamentos distintos, ele seguira uma prática baseada no fato de que os judeus e os cristãos consideravam Jerusalém uma cidade sagrada. Contudo, não havia quibla universal alguma entre eles. Alguns judeus, ao orarem, volviam os rostos para Jerusalém, especialmente durante o tempo em que estavam cativos, como veremos mais tarde. Ao tempo do Profeta Mohammad, Jerusalém estava nas mãos do Império Bizantino, o qual era cristão. Os cristãos, porém, orientavam suas igrejas para o leste, que é um ponto da bússola, e não qualquer lugar sagrado. O fato de os altares estarem situados no leste não quer dizer que todos os oradores tenham seus rostos voltados para o leste; porque, pelo menos de acordo com a prática moderna, os assentos de uma igreja estão dispostos de tal maneira que os adoradores olham para diferentes direções. O pregador da Unicidade naturalmente queria, com respeito a este e outros assuntos, um símbolo de completa unidade, e seu coração ficou naturalmente deleitado quando a quibla em direção à Caaba foi estabelecida. A conexão da Caaba com Abraão deu a ela um ar de grande antigüidade; sua característica quanto a ser um centro árabe tornou-se apropriada quando aconteceu de a Mensagem ser revelada em árabe, e ser transmitida através da união daquele povo; na ocasião em que ela foi adotada, a pequena comunidade muçulmana foi expulsa dali, procurando exílio em Madina, não obstante isso, tornou-se um símbolo de esperança e triunfo final, para cuja concretização Mohammad vivia; tornou-se ainda o centro e local de encontro de todos os povos, na peregrinação universal, que foi instituída com a quibla.
  49. Este versículo deve ser lido juntamente com o 150 desta, com o qual a sentença é aqui completada. O raciocínio é de que com a designação de Caaba, como quibla, Deus estava aperfeiçoando a religião e preenchendo os requisitos da oração futura, concebidos por Abraão. A oração haveria de ser de caráter triplo: para que Makka se tornasse um santuário sacrossanto (2ª Surata, versículo 126); para que ali uma nação (muçulmana) verdadeiramente crente se estabelecesse com locais de devoção (2ª Surata, versículo 128); para que um Mensageiro fosse enviado entre os árabes com umas certas qualidades (2ª Surata, versículo 129), lá estabelecidas e novamente repetidas aqui, para se completar o raciocínio.
  50. A palavra "recordar" apresenta-se muito inconsciente para traduzir dhikr, que adquiriu agora um vasto número de associações em nossa literatura religiosa. Em sua significação verbal ela abrange: lembrar, aprazer (a Deus), mencionando-O freqüentemente; exercitar; celebrar ou comemorar; levar a sério, cultuar a memória como um domínio precioso.
  51. A sentença "na perseverança e na oração" mencionada no versículo anterior, não constitui mera passividade. Significa ativamente porfiar pela vereda da Verdade, que é a vereda de Deus. Tal porfia consiste em despendermos nossa vereda, quer com respeito às nossas propriedades, quer com o desapego às nossas vidas e às vidas dos que nos são caros, quer com a perda de frutos da faina de toda a nossa vida, não apenas de bens materiais, mas de alguma aquisição moral e intelectual, de alguma posição que por si só pareça enormemente desejável aos nossos olhos, mas eu devemos espontaneamente sacrificar, se necessário, pela causa de Deus.
  52. A virtude da paciente perseverança na fé induz à menção de dois monumentos simbólicos dessa virtude. Existem dois pequenos montes, o de Assafa e o de Almarwa, agora absorvidos pela cidade de Makka, situados perto do poço de Zamzam. Aí, de acordo com tradições, Agar, mãe de Ismael, orou suplicando por água no deserto adusto e, levada pela sua afoita busca ao redor desses montes, teve respondidas as suas orações e avistou o manancial de Zamzam. Infelizmente os árabes idólatras haviam colocado ali um ídolo masculino e outro feminino, causando, com seus rituais grosseiros e supersticiosos, ofensa aos primitivos muçulmanos, fazendo com que estes experimentassem alguma hesitação em percorrer aquelas plagas durante a peregrinação.
  53. A Sagrada Mesquita: a Caaba, na sagrada cidade de Makka. Não é correto insinuarmos que a ordem, instituindo a Caaba como quibla, ab-rogue o versículo 115 desta, onde é asseverado que o Leste e o Oeste pertence a Deus e que Ele é Onipresente. Isto é perfeitamente verdadeiro em todas as épocas, antes e depois da instituição da quibla.
  54. O Hajj é a peregrinação principal, cujos rituais acontecem durante os primeiros dez dias do mês de Dul-hijja. A Umra constitui uma peregrinação menos formal e se dá em qualquer época do ano. Em ambos os casos suplicante peregrino começa por colocar sobre si uma vestimenta simples, de tecido, sem costura, dividida em duas peças, quando ainda está a alguma distância de Makka. A colocação dessa vestimenta peregrina (Ihram) caracteriza o simbolismo da renúncia às vaidades do mundo. Depois disto, e em todo o transcorrer da peregrinação, ele não deve usar outras roupas, não deve usar ornamentos, besuntar seus cabelos, usar perfumes, caçar, ou praticar outros atos proibidos. O complemento da peregrinação é simbolizado por rasparem as cabeças os homens, cortarem as madeixas de seus cabelos as mulheres, pelo abandono do Ihram a reposição das vestes comuns.
  55. Imprecadores, isto é, anjos e humanos (ver versículo 161 desta); os abominados se excluirão da proteção de Deus e dos anjos, tornando-se pessoas não gratas aos humanos porque, pela sua contumaz rejeição da fé, não apenas pecam contra Deus, mas ainda falseiam suas próprias condições de homens, os quais Deus criou no "mais perfeito dos moldes" (95ª Surata, versículo 4).
  56. Eternamente = por muito tempo. A maldição não é jogo de palavra; é um terrível estado espiritual, de todo oposto ao estado de graça. Pode o homem maldizer? Certamente não, no mesmo sentido que nos referimos em relação à maldição de Deus. Uma simples maldição verbal não tem efeito. Porém, se uma pessoa é oprimida ou tratada com injustiça, seus clamores podem ascender até a Deus, oração, e descerá, então, a "ira" ou maldição de Deus sobre os iníquos, privando-os de Sua graça.
  57. Onde as terríveis conseqüências do Mal como por exemplo, a rejeição de Deus, são mencionadas, há sempre uma ênfase quanto aos atributos da clemência e da misericórdia de Deus. Neste caso, a Unicidade é também enfatizada, porquanto já estamos cientes da quibla como símbolo da unidade, e prontos a abordar o tema da unidade diversificadamente, quanto à Natureza e quanto às leis sociais da sociedade humana.
  58. Esta magnífica passagem da Natureza expõe-se como um outeiro sombreando uma planície, realçando a beleza da nossa visão, preparando-nos para as leis e injunções cotidianas que se seguem. Note-se a sua arquitetura literária. Deus é Uno; e entre os Seus assombrosos Portentos está o da uniformidade de desígnios quanto à amplíssima diversificação da Natureza. Os Portentos apresentam-se em forma da beleza, poder, e da utilidade ao próprio homem, e faz com que este apele para a sua própria inteligência e sapiência. Principiamos com a glória dos céus e da terra, em amplos espaços contidos na imaginação humana, remotos, mas tão próximos à sua própria vida. O mais estarrecedor dos fenômenos cotidianos, resultante da relação mútua dos céus e da terra, consiste na alternação do dia e da noite, regular, mas cambiante, de acordo com as estações do ano e as latitudes do globo. A noite para o descanso, e o dia para o trabalho; é preciso que encaremos o trabalho em termos de beleza da natureza; o relato dos navios "que singram" os mares, como meios de comunicação e troca de mercadorias entre os povos. Deste modo, o mar não nos é menos útil do que a terra firme; e o tomar e o dar (drenagem e evaporação) entre o mar, o céu e a terra são eloqüentemente exemplificados pela chuva.
  59. Atingimos agora o ponto da regulamentação dos alimentos. Primeiramente (versículos 168-171) deparamo-nos com um apelo a todos os povos, muçulmanos, idólatras, bem como aos Adeptos do Livro; depois (versículos 172-173), aos muçulmanos em especial; então (versículos 174-176) vem aquela espécie de homens que (como alguns fazem) ou acreditam em formalismo em excesso, ou não acreditam em nenhuma restrição. O Islam segue o áureo meio-termo. Todas as sociedades bem regulamentadas estabelecem razoáveis limitações. Estas coisas tornam-se obrigatórias para todos os leais membros de uma determinada sociedade, e mostra o que é "lícito" nessa sociedade. Porém, se as limitações forem razoáveis, o "lícito" também coincidirá repetidas vezes com o que é "bom".
  60. Mai-itat: carniça; animal que morre por si. A palavra no original árabe tem um significado um pouco mais amplo, apresentado em Fiquih (jurisprudência), como qualquer coisa que morre por si mesma, não expressamente morta com o intuito de servir de alimento, e sem o Takbir (Em nome de Deus, Deus é o Maior) ser devidamente pronunciado antes de ser sacrificada. Contudo, há exceções: o pescado é lícito (halal), embora não haja sido especialmente envolvido com o halal, nem com o Takbir. Porém, mesmo o pescado, se deteriorado, deve obviamente ser evitado.
  61. Quanto à proibição dos alimentos, comparar com os versículos 4-5 da 5ª Surata e com os versículos 121, 138-146 da 6ª Surata, etc. os peritos em Fiquih ordenaram os detalhes com grande elaboração. Nosso propósito é apresentarmos princípios gerais, não detalhes técnicos. A carniça, ou carne putrefata, e o sangue, como gêneros alimentícios, devem causar repulsa a qualquer pessoa de gosto refinado. Assim deveria ser também com a carne de suíno, já que este vive de rebotalhos. Mesmo que os suínos fossem artificialmente alimentados com comida saudável, as abjeções permaneceriam, porque são animais imundos sob outros aspectos, sendo que a carne de animais imundos afeta a quem a consome; a carne de suíno possui mais gordura do que o necessário para a fortificação dos músculos; é mais propensa a causar enfermidades do que outra espécie de carne; apresenta, por exemplo, a triquinose, caracterizada por vermes da finura de um fio de cabelo, nos tecidos musculares. Quanto aos alimentos dedicados aos ídolos ou a falsos deuses, é obviamente inadmissível que os monoteístas se dêem a eles.
  62. Note-se primeiramente que este versículo e o seguinte tornam claro que o Islam mitigou, em muitos, os horrores dos costumes pré-islâmicos referentes ao Talião. A fim de satisfazer os estritos clamores da justiça, a igualdade é prescrita, com uma veemente recomendação de clemência e perdão. Apesar de o fazermos, julgamos incorreto, todavia, traduzir quisas como talião. Em todo o caso, é melhor que se evite termos técnicos para se designarem situações diferentes. "Talião" em português tem um significado mais dilatado, equivalente, quase, a "pagar o mal com o mal", e mais adequadamente aplicar-se-ia às contendas sanguinolentas da época de idolatria. O Islam assevera: se deveis tirar uma vida para pagar uma vida, que pelo menos haja um laivo de eqüidade nisso; a morte de um cativo de outra tribo não deve envolver contenda sanguinolenta alguma, pelo qual muitos homens livres seriam arrastados à morte. Porém, um decreto de misericórdia, desde que seja obtido por consenso, com razoáveis compensações, seria preferível.
  63. Os jurisprudentes têm cuidadosamente estabelecido que a lei do quisas se refere tão-somente ao homicídio. Ela não se aplica ao crime acidental ou por engano. Nesse caso, não há a pena capital.
  64. O irmão: o termo é perfeitamente generalizado, uma vez que o Islam constitui uma irmandade. Nesta, e em todas as questões de herança, as mulheres têm direitos semelhantes aos dos homens e, por isso, o gênero masculino abrange todos os sexos. Aqui, estamos considerando os direitos dos herdeiros sob o prisma de uma vasta fraternidade. Nos versículos 178-179 desta, deparamo-nos com os direitos dos herdeiros quanto à vida; nos versículos 180-182 veremos os herdeiros quanto à propriedade.
  65. É permitido um testamento verbal; porém, espera-se que o testador seja justo com seus herdeiros, e não se divorcie do que é considerado eqüitativo. Por esta razão, quinhões definidos foram estabelecidos, mais tarde, para os herdeiros (ver o versículo 11 da 5ª Surata etc.). estes procedentes definem ou limitam o poder testamentário, porém, não o ab-rogam. Por exemplo, entre os achegados encontram-se pessoas (um neto órfão na presença de filhos sobreviventes) que não herdariam sob condições de falta de testamento, mesmo que o testador quisesse fazer algo por elas. Ainda, poderia haver estranhos pelos quais ele gostaria de fazer algo; neste caso, os juristas providenciaram para que ele tivesse poder de disposição de um terço de seus bens. Não deve ser parcial em relação a um herdeiro em detrimento de outro, nem tampouco tentar ludibriar credores legais. Se tentar agir assim as testemunhas de seu testamento oral deverão interferis, agindo de duas maneiras. Uma seria persuadir o testador a mudar o seu legado antes que este morra. A outra seria, depois da morte, reunir as partes interessadas e pedir-lhes que concordassem com um arranjo mais eqüitativo. Afora isto, a mudança de disposição de um testamento é considerada crime, como acontece no caso de todas as leis.
  66. Como foi prescrito: isto não quer dizer que o jejum dos muçulmanos seja igual ao de outros anteriormente observados quanto ao número de dias, quanto à hora e à maneira de jejuar, ou quanto a quaisquer outros fatores; isto quer apenas dizer que o princípio da auto-penitência pelo jejum não é novo.
  67. O jejum muçulmano não significa auto-tortura. Conquanto seja mais meticuloso que outros jejuns, ele também propicia atenuação temporária para especiais circunstâncias. Se fosse simplesmente uma abstenção temporária, isso seria mais instintos para a comida, a bebida e o sexo são mais intensos na natureza animal, e a abstenção temporária dessas coisas resulta em que a atenção seja dirigida para algo mais elevado. E isto somente se processa através da oração, da contemplação e dos atos de caridade.
  68. Enfermidade e viagem não devem ser interpretadas num sentido dilatado; trata-se daquelas que causam verdadeiro martírio ou sofrimento, caso o jejum seja observado. Quanto à viagem, um padrão mínimo de três marchas é prescrito por alguns exegetas; outros fazem-no mais preciso com a estipulação de cerca de 80 km. Uma viagem de 12 ou 15 km a pé é mais cansativa do que a mesma viagem feita por carro de boi. Existem vários graus de fadiga em se cobrir uma distância estipulada, cavalgando (também camelo), a bordo de um confortável trem, de um automóvel, de um navio, de um avião, de uma nave espacial. Em nossa opinião os padrões devem depender dos meios de transporte e dos relativos recursos dos viajantes. É preferível determiná-lo em cada caso, de acordo com as circunstâncias.
  69. Homens e mulheres são como vestimentas uns para os outros; são para o apoio mútuo, o conforto mútuo, a proteção mútua, adaptados um ao outro como uma vestimenta se adapta ao corpo. Uma vestimenta tem o condão tanto para embelezar como de abrigar. A questão do sexo é sempre delicada de ser abordada; aqui somos instruídos que, mesmo em tal assunto, uma relação clara, franca e honesta é preferível a uma relação fraudulenta e engano de si mesmo. O instinto sexual é qualificado como um ato de comer e de beber, ocorrências animalescas a refrear, mas não de que se envergonhar. As três contingências são proibidas durante o dia, no jejum, porém permitidas quando o jejum for quebrado, à noite, até que o próximo período de jejum se inicie.
  70. Além das três exigências materiais primordiais do homem, que podem ativar a sua concupiscência, existe uma quarta forma de concupiscência na sociedade, aquela em relação à abastança e aos bens. O propósito do jejum não é atingido se essa quarta concupiscência não for, também, refreada. Comumente, as pessoas honestas contentam-se em se absterem do furto, do assalto e do estelionato. Mais duas formas sutis de concupiscência são aqui mencionadas. Uma é aquela em que alguém usa os seus próprios bens para corromper alguns juizes ou algumas autoridades, com o fito de auferir algum ganho material, mesmo sob o manto e a proteção da lei. As palavras traduzidas por "bens alheios" podem também significar "prosperidade pública". Os bens carregam consigo o estigma da responsabilidade. Se falharmos em compreendê-los e satisfazê-lo, não teremos aprendido a consistente lição da abnegação pelo jejum.
  71. Havia muitas superstições relacionadas ao novilúnio, como ainda as há hoje em dia. Porém, é-nos aconselhado que nos desvencilhemos de tais superstições. Como divisão de tempo, onde o calendário lunar é observado, a lua nova constitui um importante sinal, pelo qual as pessoas esperam com avidez. As festividades muçulmanas, incluindo a peregrinação, são fixadas pela aparição da lua nova. Os árabes, entre outras superstições, possuíam uma, que consistia em entrarem em suas casas pelas portas de trás, durante ou depois da peregrinação. Isto é desaprovado, porque não há virtude em qualquer dessas restrições artificiosas. Toda virtude procede do amor e do temor a Deus.
  72. Eis aqui um provérbio muçulmano, que deveria ser muito repisado, quanto às suas multifárias significações. Umas poucas serão citadas aqui. Se ingressardes numa sociedade, respeitai as suas normas e os seus costumes; se desejardes honradamente alcançar um objetivo, apegai-vos a isso abertamente, e não "sorrateiramente"; não useis de subterfúgios; se desejardes sucesso num empreendimento, providenciai todos os instrumentos necessários para tanto.
  73. A guerra somente é permissível em defesa própria, e com limite bem definidos. Uma vez empreendida, ela deve ser conduzida com vigor, não de modo implacável, mas no sentido de restabelecer a paz e a liberdade de culto a Deus. De qualquer modo, os limites rigorosos não devem ser transgredidos; as mulheres, as plantações não devem ser extirpadas, nem tampouco a paz deve ser negada quando o inimigo a propõe.

     

  74. Esta passagem é ilustrada pelos eventos que tiveram lugar em Alhudaibiya, no sexto ano da Hégira, embora não esteja claro se foi revelada na ocasião ou não. Os muçulmanos constituíam, naquele tempo, uma poderosa e influente comunidade. Muitos deles faziam parte dos exilados de Makka, onde os idólatras tinham estabelecido uma autocracia intolerante, perseguindo-os, proibindo-os de visitarem os lares, e mesmo proscrevendo-os da peregrinação, durante o universalmente conhecido período de trégua. Isto denotava intolerância, opressão e autocracia no mais alto grau. A simples disposição, por parte dos muçulmanos satisfaziam fielmente. Mesmo assim os idólatras não tinham escrúpulos em romperem com fé.

     

     

  75. À semelhança disso, as cercanias de Makka eram consideradas sagradas, locais em que a guerra era proibida. Se os inimigos os Islam infringissem tal conceito, os muçulmanos ficariam livres para, igualmente, o infringirem, na mesma proporção. Qualquer convenção torna-se ineficaz, se uma das partes não a respeita. Tem de haver uma lei de igualdade. Ou talvez a palavra "reciprocidade" expresse melhor essa conjuntura.
  76. Toda a luta requer meios para os seus preparativos. Se a guerra é justa e pela causa de Deus, todos os que possuem bens devem gastá-los espontaneamente. Essa deve ser a sua contribuição para a Causa, em adição ao seu esforço pessoal, ou se por qualquer razão se encontrarem impossibilitados de lutar. Se se agarrarem às suas riquezas, talvez as suas próprias mão estejam contribuindo para a sua autodestruição. Ou, por outra, se a sua riqueza estiver sendo gasta, não na causa de Deus, mas em algo que deleita os seus caprichos, poderá acontecer de as vantagens irem para o inimigo, e a pessoa, assim, estará, pela sua ação, contribuindo para a sua própria destruição. Em todos os tópicos, os seus padrões devem ser, ano de egoísmo, mas de benevolência para com a sua irmandade, pois que tal benevolência é prazerosa aos olhos de Deus.

    80 – a. Ver nota nº 58.

  77. nos meses já mencionados: os meses de Chawal, de Dul-quida, e de Dulhijja (até ao 10º ou ao 13º dia) sai reservados para os rituais do hajj. Isso equivale a dizer que os rituais podem iniciar-se cedo, logo no começo de Chawal, com uma chegada definida a Makka, mas os principais rituais são concentrados nos primeiros dez dias de Dul-hijja, especialmente no 8º, 9º e 10º dias desse mês, quanto a influência de peregrinos alcança o seu auge.
  78. A cerca da metade do caminho entre Arafat e Mina (ver versículo 197 desta Surata e a sua respectiva nota), encontra-se um lugar chamado Muzdalifa, onde o Mensageiro fez uma longa oração. Esse lugar tornou-se o Monumento Sagrado, e os peregrinos são instruídos no sentido de seguirem tal exemplo, quando do seu retorno.
  79. Ao aproximar-se o fim da peregrinação a multidão é imensa, e se algumas pessoas se retêm, depois do ritual de Arafat, isso causa grande confusão e inconveniência. Por conseguinte, a saída deve ser rápida para todos, conduta esta estritamente necessária. Cada membro da multidão deve pensar no conforto e na conveniência de todos.
  80. Depois da peregrinação, no tempo da idolatria, os peregrinos costumavam reunir-se em assembléia, na qual eram decantados os louvores aos antepassados. Como todos os rituais da peregrinação foram espiritualizados no Islam, assim o desfecho da peregrinação foi, também, espiritualizado. Foi recomendado que os peregrinos permanecessem dois ou três dias depois da peregrinação, porém deveriam gastá-los em oração e louvor a Deus. Ver versículo 203 desta Surata.
  81. Nos dias já mencionados: os três dias depois do décimo, quando os peregrinos permanecem no Vale de Mina para a oração e o louvor. São os dias do Tachric (ver versículo 200 desta surata e a sua respectiva nota). Os peregrinos têm a opção de partir no segundo ou no terceiro dia.
  82. Se carecem de fé, usam de todas as escusas para resistirem ao apelo de Deus. Dizem eles: "Oh, sim, nós acreditamos em Deus, se Ele nos aparecer, acompanhado dos Seus anjos e da Sua Glória!" Em outras palavras, eles querem que seja a sue modo, e não segundo os desígnios de Deus. Porém, assim não será, sabendo-se que a decisão de todas as questões pertence a Deus. Se formos sinceros para com Ele, esperaremos pelo Seu tempo e pela Sua época, e jamais aguardaremos que Ele espere pelo nosso tempo e pela nossa época.
  83. Aos israelitas, sob a orientação de Moisés, foram apresentados a glória de Deus e muitos sinais evidentes, mas mesmo assim eles seguiram a sua própria conjectura, preferindo os seus próprios caprichos e fantasias. Assim fazem os povos em todas as eras. Mas eles que não se iludam! A justiça de Deus é inexorável e, quando vier, será implacável e inconfundível para com aqueles que rejeitam as Suas Mercês.
  84. Comparar com o versículo 196 desta Surata (final); lá a questão era a daqueles que não temem a Deus. Aqui a questão é a daqueles que Lhe rejeitam os portentos.
  85. As dádivas divinas, neste mundo, parecem ser díspares, parecendo, às vezes, que as conseguem aqueles que menos as merecem. A benevolência de Deus é ilimitada, tanto para o justo como para o injusto. Em sua sapiência, Ele pode concedê-la a quem Lhe aprouver. O cômputo pode não ser considerado agora, mas sê-lo-á no final, quando a balança for compensada.
  86. A intolerância e a perseguição, por parte de uma súcia de idólatras de Makka, causaram inenarráveis adversidades ao Mensageiro do Islam e aos seus primeiros companheiros. Eles suportaram tudo com humildade e incansável paciência, até que o Mensageiro permitiu que pegassem em armas, para efetuarem a defesa própria. Então, eles foram censurados pela quebra do costume quanto aos meses proibidos, embora fossem compelidos a lutar durante aquele período, contrariando os seus próprios sentimentos, em defesa própria. Os seus inimigos não apenas os forçavam a tomar atitudes guerreiras, mas ainda interferiam nas suas consciências, perseguiam-nos a eles e às suas famílias, insultavam abertamente Deus e O negavam, mantinham os árabes muçulmanos fora da Mesquita Sagrada, e os exilavam. Tais violências e intolerâncias são adequadamente tidas como piores do que o homicídio.
  87. Khamr: bebida; literalmente compreendida como significando o sumo fermentado da uva. É aplicada, por analogia, a todas as bebidas fermentadas, e, numa analogia mais intensa, a qualquer bebida ou droga tóxica. Poderá, possivelmente, haver algum benefício nela, mas o dano é maior do que o benefício, especialmente se considerarmos do ponto de vista social, bem como do individual.
  88. Maissar: jogo; literalmente, um meio de se conseguir algo, mui facilmente, usufruindo lucros, sem trabalhar para tal; daí, jogo. Esse é o princípio pelo qual o jogo é proibido. A forma mais familiar de jogo, entre os árabes, era a de tirar a sorte por meio de setas, constituindo o princípio da loteria; as setas eram marcadas e serviam ao mesmo propósito dos bilhetes de loteria de hoje. Setas marcadas eram retiradas de um saco. Algumas não possuíam marcas, e aqueles que as retiravam nada ganhavam. Algumas marcas indicavam prêmios, que podiam ser grandes ou pequenos. Tirar alguém polpudo quinhão, ou pequeno, ou nenhum, isso dependeria de pura sorte, a menos que houvesse fraude da parte de algumas pessoas envolvidas. O princípio no qual a objeção está baseada é: mesmo que não haja fraude, ganhamos aquilo que não merecemos pelo esforço, ou perdemos por mero azar. O dado e as apostas estão apropriadamente enquadrados na definição do jogo. Contudo, o expediente do Seguro não é considerado jogo, uma vez conduzido nos princípios negociosos. Aqui as bases dos cálculos constituem estatística em larga escala, da qual o mero azar é eliminado. Os próprios seguradores pagam bônus na proporção dos riscos, calculados exata e estatisticamente.
  89. O matrimônio é a mais íntima das comunhões, e o mistério do sexo encontra a sua suprema satisfação quando a harmonia espiritual íntima é combinada com o elo material. Se de maneira alguma a religião exerce uma real influência na vida de um dos consortes, ou de ambos, a diferença nesta questão vital certamente afetará as vidas de ambos, mais profundamente do que as diferenças de berço, raça, língua, ou posição. Por conseguinte, é preciso que as partes, ao se darem em matrimônio, possuam as mesmas aspirações espirituais. Se duas pessoas se amam, as suas aspirações quanto às coisas supremas da vida devem ser idênticas. Note-se que a religião, neste caso, não constitui um simples rótulo, nem tampouco é uma questão de costume ou de berço. Duas pessoas poder ter nascido em religiões diferentes, mas se, por suas mútuas aspirações, vierem a descortinar da mesma maneira a verdade, elas certamente, de pronto, aceitarão os mesmos rituais e a mesma irmandade social. Caso contrário, a situação tornar-se-á insustentável, tanto individual como socialmente.
  90. Azan: impureza, poluição. Ambos os conceitos devem ser lembrados. O asseio e a pureza corporais fazem bem, tanto ao corpo como ao espírito. A relação sexual nesse período é proibida. Porém, o assunto deve ser considerado sob o ponto de vista da mulher, bem como do ponto de vista do homem. Quanto a ela, há o perigo da impureza, o que deve ser levado em consideração. No mundo animal o instinto é um guia que deve ser obedecido. O homem deveria ser superior neste particular, mas freqüentemente é inferior.
  91. Os árabes possuíam muitas espécies de imprecações, tendo para cada uma delas uma denominação especial em seus jargões. Muitas dessas denominações relacionavam-se com o sexo e causavam o desentendimento, a alienação, a divisão e a separação entre o marido e a mulher. Este e os três versículos seguintes referem-se a isso.
  92. Os árabes idólatras tinham um costume um tanto injusto para com as mulheres candidatas ao casamento, e isso foi suprimido pelo Islam. Às vezes, advindo de um arroubo de cólera ou de capricho, o marido proferia um juramento, por Deus, de não tocar a sua esposa. Isso privava-a dos seus direitos conjugais, mas ao mesmo tempo mantinha-a ligada a ele, indefinidamente; assim, ela não se podia casar de novo. Caso quisesse que o marido reconsiderasse, ele argumentava que o seu juramento a Deus o impedia. Em primeiro lugar, o Islam desaprovou os juramentos impensados, mas insistiu em que um juramento adequado, solene e intencional fosse escrupulosamente observado. Num assunto melindroso como esse, em que a esposa é afetada, se o juramento é apresentado com uma escusa, é dito ao homem que de maneira alguma há desculpa. Deus leva em consideração a intenção, não meras palavras insensatas. É permitido às partes um período de quatro meses, para ver se se decidem por um possível reajustamento. A reconciliação é recomendada, mas se eles realmente optam pela separação, é injusto mantê-los ligados indefinidamente. O divórcio é o único expediente justo e eqüitativo, embora, como o Mensageiro declarou, de todas as coisas permitidas, o divórcio seja a mais odiosa aos olhos de Deus. Em tais circunstâncias, Deus perdoará, porque Ele conhece os ressentimentos de cada uma das partes, e atenderá aos clamores daquele que sofre.
  93. O Islam tenta manter o estado matrimonial tão prolongado quanto possível, especialmente quando há filhos envolvidos; porém, é contrário às restrições à liberdade do homem e da mulher em assuntos de importância vital, como o amor e a vida familiar. Ele restringe os atos impetuosos tanto quanto possível, e deixa em aberto as portas para a reconciliação em muitos itens. Uma sugestão de reconciliação é feita, sujeira a certas precauções (ver os versículos seguintes) contra atos impensados.
  94. A diferença de posição econômica entre homens e mulheres faz com que os direitos e as responsabilidades daqueles sejam superiores aos destas. O versículo 34 da 4ª Surata refere-se ao dever do homem de manter a mulher, bem como a uma certa diferença, quanto à natureza dos sexos. Adstritos a isso, os sexos estão em igualdade de condições perante a lei.
  95. No ponto em que o divórcio por incompatibilidade mútua é permitido, há sempre o perigo de que as partes ajam precipitadamente, então arrependam-se e desejem separar-se novamente. Para se evitar a continuidade de tal ação caprichosa, é estabelecido um limite. Dois divórcios (com uma reconciliação entremeada) são permitidos. Depois disso, as partes devem decidir-se definitivamente: ou dissolverem permanentemente a união, ou viverem honradamente juntos, em tolerância e amor mútuos – "conservá-las condignamente"; nenhuma das partes deve infernizar a outra, nem resmungar, nem furtar-se aos deveres e às responsabilidades do casamento.
  96. Todas as proibições e limitações, prescritas aqui, o são no interesse de uma vida decente e honrada para ambas as partes, bem como no interesse de uma vida social limpa e virtuosa, sem escândalos, públicos ou secretos. Caso haja qualquer temor de que – por serem salvaguardados os interesses econômicos dela, a sua liberdade pessoal fique afetada – o marido se recuse a dissolver o casamento e talvez a trate com crueldade, então, em tais casos excepcionais, é permitido conceder alguma consideração material ao marido; mas a necessidade e a eqüidade disso devem ser submetidas ao julgamento de juizes imparciais, isto é, a tribunais constituídos. Um divórcio desta natureza é denominado Khul’a.
  97. Este versículo é a continuação da primeira sentença do versículo 229 desta surata. São permitidos dois divórcios, seguidos de reconciliação; na terceira vez, o divórcio se torna irrevogável, até que a mulher se case com outro homem e dele se divorcie. Isto serve para estabelecer uma condição quase impraticável. Tira-se daqui a seguinte conclusão: Se um homem ama uma mulher, não deve permitir que ímpetos subitâneos de temperamento ou de furor o induzam a tomar atitudes precipitadas. Que acontece depois de dois divórcios, quando um homem toma a esposa de volta? Ver a nota seguinte.
  98. Há, aqui, duas cláusulas condicionais: - "Quando vos divorciardes das vossas esposas..." e "ao terem elas cumprido o período prefixado (iddat)...", seguidas de duas cláusulas conseqüentes: - "Tomai-as de volta eqüitativamente" ou "libertai-as eqüitativamente". A primeira cláusula é relacionada com a terceira, e a Segunda com a quarta, por assim dizer. Todavia, se o marido deseja reatar os laços matrimoniais, não precisa esperar pelo Iddat. Porém, se não deseja, ela fica livre para se casar com outro, depois do Iddat. Para se conhecer o significado do Iddat, ver a nota do versículo 228 desta surata.
  99. O término de um laço matrimonial é a questão mais cruciante, tanto para a família, como para a vida social. E todos os expedientes lícitos que possam, eqüitativamente, propiciar a reconciliação dos que já viveram juntos são aprovados, conquanto haja amor entre eles, e possam viver em termos de honradez, um para com o outro. Se tais condições forem satisfeitas, não caberá, por direito, a estranhos, impedir ou obstruir a reconciliação. Estes poderão estar cobiçando os bens ou anelando outras eventualidades. Este versículo foi ocasionado por um fato real, que foi submetido ao Mensageiro, durante a sua vida.
  100. A espera para a viúva (quatro meses e dez dias) deve ser mais longa que a do Iddat para a divorciada (três menstruações; ver versículo 288 desta surata). No último caso, o único escopo é certificar-se de que não há concepção proveniente do casamento dissolvido. Isto torna-se claro no versículo 49 da 33ª Surata, onde está especificado que não há Iddat para as divorciadas virgens. No primeiro caso há, em adição, a consideração do luto e do respeito à memória do marido falecido. Em ambos os caos, se houver provas de concepção, um novo casamento, para a mulher, estará certamente fora de cogitação até ao nascimento da criança, desde que se observe, então, um intervalo. Enquanto isso, o seu sustento, numa escala razoável, ficará a cargo do último marido ou dos familiares deste.
  101. A lei estipula que, em tal caso, metade do dote fixado deve ser paga pelo homem à mulher. Porém, fica a critério da mulher perdoar a metade do que iria receber ou ao homem perdoar a metade que está autorizado a deduzir.
  102. Quem tiver o contrato matrimonial em seu poder, de acordo com a escola hanafita, é o próprio marido que comumente pode, por uma ação sua, dissolver o casamento. Convém-lhe, portanto, se o mais liberal possível para com a mulher pagando-lhe o dote inteiro, mesmo que o casamento não tenha sido consumado.
  103. Orações intermediárias: deveria ser traduzido como "as melhores ou as excelentíssimas orações". Os exegetas diferem quanto ao exato significado desta frase. A maioria deles, porém, parece optar pela interpretação disto como "a Oração da Tarde". Assim sendo, ela é passível de ser negligenciada; mas mesmo assim é estritamente necessária, e nos faz lembrar de Deus no meio dos nossos afazeres terrenos. Há uma surata especial (a 103ª), intitulada "Al ‘Asr", de cujo significado místico do texto trata apropriadamente.
  104. Devemos combater pela causa de Deus, e nunca para satisfazer as nossas próprias paixões e cupidez egoístas; eis que a admoestação se repete: "Deus é Oniouvinte, Sapientíssimo".
  105. A geração subseqüente a Moisés e a Aarão foi governada por Josué, que cruzou o Jordão, estabelecendo as tribos na Palestina. O seu governo durou 25 anos, após os quais houve um período de 320 anos, em que os israelitas passaram a ter uma história cheia de anomalias. Eles não eram unidos entre si e por isso sofreram duros reveses nas mãos dos madianitas, dos amalecitas e de outras tribos da Palestina. Eles freqüentemente descambavam para a idolatria e olvidavam a adoração do verdadeiro Deus. De tempos em tempos aparecia um líder entre eles, que se investia de poderes ditatoriais. Tais ditadores são chamados de Juizes, na tradução portuguesa do Antigo Testamento. O último de sua estirpe foi Samuel, que constitui um marco na transição da linhagem dos Reis, por um lado, e dos últimos profetas, por outro. Ele data aproximadamente do século XI a.C.
  106. Talut é o nome árabe para Saul, que era alto e bem apessoado, e que pertencia à tribo de Benjamim, a menos das doze tribos. Os seus bens terrenos era minguados; e foi quando saiu em busca de alguns asnos que tinham fugido da casa de seu pai, que encontrou Samuel, e foi, por este, ungido rei. O capricho do povo apareceu imediatamente após ele se nomeado. Eles levantaram toda a espécie de objeções triviais. A principal circunspecção em suas mentes era o egoísmo; cada um queria, por seu turno, ser líder ou rei em pessoa, ao invés de querer o bem do povo como um todo, como um líder deve querer.
  107. Arca da Aliança: Tábut, em árabe. Um baú de madeira de acácia, coberto e filigranado de ouro puro, cujas dimensões são: 1,50 m X 0,90 m X 0,90 m (ver Êxodo, 25:10-22). Supunha-se conter o "testemunho de Deus" ou os Dez Mandamentos, entalhados em pedras, com relíquias de Moisés e Aarão. A sua tampa de ouro constituía o "Assento da Misericórdia" com dois querubins de ouro maciço, com as asas abertas. Era, para os israelitas, uma possessão sagrada. Ela foi perdida para o inimigo, logo no início do ministério de Samuel; ver o versículo 246 desta Surata, e a sua respectiva nota; quando foi trazida de volta, permaneceu num vilarejo por 20 anos e, aparentemente, foi levada para a capital quando o reinado foi constituído. Tornou-se, assim, um símbolo de unidade e de autoridade.
  108. Davi não somente era pastor, guerreiro, rei, sábio e profeta, como também era dotado do Dom da poesia e da música.
  109. Este é o "Versículo do Trono" (Áiat-ul-Cursi). Quem poderia traduzir o seu glorioso significado ou reproduzir o ritmo das suas bens escolhidas e compreensíveis palavras? Mesmo no original árabe o significado parece ser maior do que podem exprimir as palavras.
  110. Os atributos de Deus são tão diferentes de qualquer coisa que conhecemos, no nosso mundo presente, que devemos ficar satisfeitos com a compreensão de que a única palavra adequada, com que podemos designá-Lo, é "Ele". Ele vive, mas a Sua vida é auto-subsistente e eterna; ela não depende de outros seres e não inclui apenas a idéia de "auto-subsistência", mas também a idéia de "resguardo e manutenção de todas as vidas". A sua vida é a fonte e o esteio, constantes de todas as formas derivadas de vida. A vida perfeita constitui atividade irrepreensível, em contraste com a vida imperfeita, que vemos a nos rodear, a qual não apenas está sujeita à extinção, mas também à necessidade de repouso, ou de diminuição das atividades (algo entre a atividade e sono, para o qual nós, de comum acordo com os outros tradutores, usamos a palavra "inatividade"), pela necessidade de um sono reparador. Porém, Deus não tem necessidade de descansar ou de dormir. A sua atividade, como a Sua vida, é perfeita e auto-subsistente. Contrastante com esta assertiva é a expressão usada no Salmos, 77.65: "E despertou o Senhor, como homem adormecido, como guerreiro subjugado pelo vinho".
  111. Depois de nos conscientizarmos de que a Sua Vida é uma Vida absoluta, de que o Seu Ser é um Ser absoluto, ao passo de outras vidas e outros seres são eventuais e evanescentes, nossas idéias de céus e terra desvanecer-se-ão como brumas na presença da luz. O que está por detrás dessas brumas é Ele. Tal realidade, como a que os nossos céus e a nossa terra possuem, é um reflexo da Sua absoluta Realidade. Os panteístas transmitem uma idéia errada, ao dizer que tudo é Ele. A verdade será melhor evidenciada se dissermos que tudo é d’Ele. Como poderia alguém postar-se ante Ele, ufanando-se perante Ele, por direito, e clamar por intercessão junto ao seu próximo? Em primeiro lugar, ambos pertencem a Ele, sendo que Ele vela tanto pela vida de um como pela de outro. Em segundo, ambos estão na dependência da Sua Vontade e do Seu Comando. Porém Ele, em Sua Sapiência e Planificação, pode cotejar as Suas criaturas e conceder-lhes graus de superioridade umas sobre outras. Então, questões, de acordo com as leis e os deveres que lhes forem impostos. Os conhecimentos de Deus são absolutos e não estão condicionados pelo Tempo e pelo Espaço. A nós, Suas criaturas, estão condições sempre se aplicam. Os Seus conhecimentos e os nossos, acham-se, por isso mesmo, em diferentes categorias, sendo que os nossos apenas conseguem alguns reflexos da realidade, quando concordam com a Sua Vontade e Planificação.
  112. Trono: assento, poderio, conhecimento, símbolo de autoridade. Em nossos pensamentos englobamos tudo quando dizemos "os céus e a terra". Bem, então, em tudo está presente o poder, a vontade e a autoridade de Deus. Certamente, "tudo" inclui as coisas espirituais, bem como os cinco sentidos.
  113. A imposição é incompatível com a religião, porque a religião depende da fé e da vontade, e estas perderiam a sua consistência, se induzidas à força; a verdade e o erro têm sido tão claramente mostrados pela mercê de Deus, que não deveria haver dúvidas na mente de qualquer pessoa de boa vontade quanto aos fundamentos da fé; a proteção de Deus é contínua e os Seus planos hão de sempre guiar-nos, tirando-nos das profundezas das trevas e conduzindo-nos à clareza da luz.
  114. Os três versículos 258, 259 e 260, têm dado origem a muitas controvérsias quanto ao seu significado exato, no sentido de correlacionar os incidentes e a exatidão das pessoas aludidas, cujos nomes não são mencionados. Em tais assuntos, em que o Alcorão não menciona nomes, e em que o próprio Mensageiro não deu indicação alguma, parece-nos inútil especular e, ainda por, emitir possíveis opiniões. Em questão de aprendizado, as especulações são freqüentemente interessantes. Contudo, parece-nos que o significado do Alcorão é tão vasto e universal, que corremos o risco de nos desviar do seu real e eterno significado, se continuarmos a disputar sobre pontos de somenos importância. Os três incidentes constituem alguns dos que talvez tenham acontecido repetidas vezes em qualquer fase da vida do Profeta, e podem ser tomados como uma visão impessoal, em qualquer tempo.
  115. O primeiro ponto destacado é o orgulho do poderio e a impotência do poder humano ante o poder de Deus. A pessoa que disputava com Abraão pode Ter sido Nemrod ou algum governador da Babilônia ou de outro lugar qualquer. Escolhemos a Babilônia porque foi o berço original de Abraão (Ur da Caldéia), e porque a Babilônia se orgulhava da sua arte e da sua ciência, no mundo antigo. A ciência pode ter muitas práticas magníficas; ela as teve naquele tempo, elas as tem hoje. Porém, os mistérios da vida baldava a ciência daquele tempo e continuam a baldar a ciência de hoje, depois de muitos séculos de progresso.
  116. Este incidente refere-se diversificadamente à visão de Ezequiel das ossaturas secas (Ezequiel 37:1-10), à visita de Neemias a Jerusalém em ruínas, depois da capitulação e da sua reconstrução (Neemias 1:12-20), e a Uzair, ou Ezra, ou Esdras, o escriba, sacerdote e reformador, que foi enviado pelo rei persa depois da capitulação de Jerusalém, e sobre o quê há muitas lendas judaicas. A disposição vocabular é perfeitamente generalizada, e nós devemos entendê-las como tal. Achamos que de fato se refira não somente à morte e à ressurreição do indivíduo, mas também da nação.
  117. Uma porção deles: Juz’an, em árabe. Acatadíssimos exegetas compreendem que isto significa que os pássaros haviam de ser despedaçados e que os pedaços deles deveriam ser postos nos montes. O despedaçamento ou matança não é mencionado, mas eles afirmam que está implícito, por elipse, uma vez que a questão é a de como Deus ressuscita os mortos.
  118. A verdadeira caridade é como uma campina de solo magnífico, situada em local privilegiado. Absorve as precipitações de chuva e a umidade penetra o solo, não obstante a posição privilegiada mantê-lo sempre drenado, fazendo com que as condições saudáveis aumentem enormemente a sua produtividade. Porém, supondo-se mesmo que a chuva não seja abundante, ele absorve o orvalho, aproveitando ao máximo qualquer umidade que possa assimilar, e isso lhe basta. Assim, também, um homem verdadeiramente caritativo é espiritualmente abastado; coloca-se em condições de atrair as mercês de Deus, que ele não guarda egoisticamente, mas faz com que circulem livremente.
  119. Tendo sido explicadas as três parábolas concernentes à natureza da caridade verdadeiramente espiritual, uma quarta parábola é aqui adicionada, esclarecendo o seu significado em toda a nossa vida. Suponhamos que possuíssemos um suntuoso pomar, bem irrigado e fértil, com deslumbrantes vistas de riachos, com refúgio para o descanso da mente e do corpo; suponhamos que a velhice fosse se assomando em nós, sendo os nossos filhos ainda muito jovens para se dirigirem por si, ou carentes de saúde; como nos sentiríamos se um torvelinho repentino, seguido de relâmpagos ou de fogo, se abatesse sobre o pomar, esturricando-o, abatendo deste modo todas as nossas esperanças, presentes e futuras, destruindo o resultado de toda a nossa labuta e das nossas economias do passado? Bem, esta nossa vida é uma provação. Podemos trabalhar com afinco, podemos economizar; talvez tenhamos boa sorte. Talvez construamos para nós um magnífico jardim de recreio, e tenhamos meios de nos sustentar, bem como aos nossos filhos. Vem um enorme torvelinho, acompanhado de relâmpagos e de fogo e queima todo o negócio. Somos, então, já idosos para começar novamente, e nossos filhos muito jovens ou débeis para reparar os infortúnios. As nossas chances são remotas, uma vez que não nos prevenimos para tal contingência. O torvelinho é a "calamidade iminente"; a prevenção contra ele é levar uma vida de verdadeira caridade e virtude, que é a fonte da verdadeira e duradoura felicidade, neste mundo e no outro. Sem isso, estaremos sujeitos à vicissitudes desta vida incerta. Podemos, até, pôr a perder a nossa decantada "caridade", por insistirmos na obrigação que os outros têm para conosco, ou por lhes causarmos danos, porque os nossos pretextos não são puros.
  120. "De tenra idade": dhu’afan em árabe; literalmente quer dizer fraco, decrépito, enfermo, possivelmente referindo-se tanto à saúde como à vontade, ou ainda ao caráter.
  121. O bem e o mal mostram-nos caminhos opostos, por pretextos opostos, e o contraste é bem demarcado na caridade. Quando pensamos em praticar algum ato de benevolência ou de caridade, somos acometidos de dúvidas e invadidos pelo temos do empobrecimento; o mal, no entanto, sustenta qualquer tendência egoística, cúpida ou gasto extravagante para exibições, deleites pessoais ou apetites indecorosos. Ao contrário, Deus nos introduz em tudo o que é bom e benigno, porque neste procedimento encontra-se o perdão dos nossos pecados, bem como a grande e real prosperidade e satisfação. Ato benigno ou generoso algum jamais arruinou alguém. A falsa generosidade, ao contrário, é que, no mais das vezes, conduz à ruína. Tendo em mente que Deus conhece todos os nossos pretextos e Se importa com todos eles, além de ter tudo em Seu poder, é óbvio o rumo que o homem prudente escolherá. Todavia, a prudência é rara, e é somente esta que sabe apreciar o verdadeiro bem-estar, bem como distingui-lo do falso e aparente.
  122. A usura é condenada e proibida nos termos mais enérgicos possíveis. Não pode haver polêmica acerca desta proibição. Quanto à definição da usura, isto dá ensejo para diferenças de opinião. Os nossos jurisprudentes, antigos e modernos, elaboraram um extenso trabalho de literatura sobre a usura, baseados, principalmente, nas condições econômicas, tal como existiam no despontar do Islam. Porém, devido ao fato de que os juros ocupam uma posição central na vida da economia moderna e, especialmente, já que os juros são o próprio sangue da vida das instituições financeiras existentes, muitos muçulmanos ficaram inclinados a interpretá-los de uma maneira radicalmente diferente da dos jurisprudentes muçulmanos, ao longo de quatorze séculos, e estão em conflitos acentuados com as injunções categóricas do Profeta. De acordo com os ensinamentos islâmicos, qualquer excesso no capital é ribá (juros). O Islam não aceita distinções, em casos de proibições, entre taxas razoáveis e exorbitantes de juros, e assim, entre aquilo que é considerado diferença entre usura e juros; nem entre retorno, em bônus, para consumo e para propósitos produtivos etc.
  123. Um símile adequado: enquanto que a diligência e o comércio legítimos aumentam a prosperidade e a estabilidade dos homens e das nações, a dependência da usura meramente encoraja uma corja de ociosos, de sangue-sugas cruéis e de indivíduos indignos, que nada sabem do seu próprio bem e são, portanto, capazes de enlouquecer os outros.
  124. A primeira parte do versículo diz respeito às transações que envolvem pagamentos futuros ou futuras considerações, e a segunda às transações nas quais o pagamento e a entrega são efetuados no ato. São exemplos da primeira circunstância: Mercadorias compradas agora, com pagamento prometido para tempo e local futuros; pagamentos efetuado agora, com entrega contratada para tempo e local futuros. Em tais casos, recomenda-se um documento por escrito, mas deve-se Ter em mente que as palavras "mais eqüitativo... mais válido para o testemunho e o mais adequado para evitar dúvidas" etc., implicam na não-obrigatoriedade, por parte da lei. São exemplos da Segunda circunstância: pagamento à vista e entrega no ato – isso não requer evidência escrita, mas testemunhas oculares, para tais transações, são recomendadas.
  125. O escriba, em tais assuntos, assume uma condição de fiduciário; portanto, deve registrar o ato como se estivesse na presença de Deus, pleno de justiça para com ambas as partes. Deve considerar o Dom da escrita como uma dádiva divina, passando a usá-la como se estivesse a serviço de Deus.
  126. A ética comercial é, aqui, ensinada da maneira mais prática, sendo ambos os expedientes condizentes com as barganhas a serem realizadas, as evidências a serem providenciadas, as dúvidas a serem desfeitas, e com os deveres e direitos dos escribas e das testemunhas. A probidade, mesmo em assuntos terrenos, terá de ser, não apenas uma simples questão de conveniência ou de política, mas uma questão de consciência e dever religiosos.
  127. Um penhor ou segurança fica na dependência do seu próprio mérito, embora seja uma forma muito conveniente de se concluir a barganha, quando as partes não confiam uma na outra, e não podem conseguir um acordo por escrito, com testemunhas adequadas.
  128. A lei do depósito requer enorme confiança no depositário, da parte do depositante. O depositário torna-se um fiduciário, sendo que a doutrina da confiança pode ser plenamente desenvolvida nessa base. O dever do fiduciário é salvaguardar os interesses da pessoa, em cujo favor ele conserva a custódia dos bens, e dar de volta as contas e os haveres, quando requeridos. Repisamos que tal dever está mais ligado às sanções da Religião, que requer padrões mais altruísticos do que a Lei.
  129. Comparar com o versículo 136 desta surata e com a sua respectiva nota. Não devemos fazer qualquer distinção entre um e outro dos mensageiros de Deus. Devemos honrá-los eqüitativamente, embora saibamos que Deus, em Sua Sapiência, enviou-os com missões diferentes e deu-lhes diferentes graus de consideração.
 

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