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O islam
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  1. A argumentação é tripla: (1) Deus criou tudo o que vedes e conheceis; como podeis, então, julgar que qualquer de Suas criaturas possa igualar-se a Ele? (2) Ele é o vosso próprio Senhor; Ele vos adora e ama; como podeis, então, ser tão ingratos, e correr atrás de outra entidade? (3) As trevas e a luz existem para ajudar-vos a distinguir entre o verdadeiro e o falso; como podeis, então, confundir a verdade de Deus com as vossas falsas idéias e superstições? Talvez possa haver repúdio quanto ao dualismo da antiga teologia persa; Luz e Trevas não são duas forças conflitantes; ambas são criações do Único e Verdadeiro Deus.
  2. Esta vida é um período de provação. O outro período prepara o Julgamento.
  3. É insensatez supormos que Deus reina apenas nos céus. Ele reina também na terra. Ele conhece todas as nossas intenções e pensamentos secretos, bem como a real validade do que está por trás daquilo que nos dignamos mostrar. É pelos nossos feitos que Ele nos há de julgar; pelos nossos feitos, bons ou maus, teremos a devida recompensa, no devido tempo.
  4. A palavra Quirtás, na época do Mensageiro, poderia significar apenas "pergaminho", que foi empregado como material de escrita na Ásia ocidental, a partir do século II a.C. A palavra derivou-se do grego Charles (comparar com a palavra latina Charta). O papel, como o conhecemos, feito de trapos, foi primeiramente usado pelos árabes, depois da conquista de Samarcanda, no ano 751 d.C. Os chineses haviam-no usado, lá pelo século II a.C. Os árabes o introduziram na Europa, e ele foi usado na Grécia no século XI ou XII, e na Espanha, por intermédio da Sicília, no século XII. O papiro, feito de junco egípcio, já era usado no Egito, por volta do ano 2500 a.C. Então, ele cedeu lugar ao papel, no século X d.C.
  5. Os materialistas desejam, literalmente, ver as coisas físicas e materiais perante eles; porém, se tal coisa lhes aparece, provinda de fonte incomum, eles não a podem compreender, e dão-lhe nomes tais como magia, ou superstição, ou qualquer outro nome em voga, não ajudando em nada no sentido de adquirirem fé, porquanto "em seus corações abrigam a morbidez"(2ª Surata, versículo 10).
  6. A frase "os escarnecedores foram envolvidos por aquilo de que escarneciam" expressaria, epigramaticamente, só parte do sentido, mas não o todo. O termo "foram envolvidos" implica em que a lógica dos eventos fez o feitiço virar contra o feiticeiro e, uma vez que o homem se vê sitiado e rodeado pelos inimigos, na guerra, e é forçado a se render, então os escarnecedores constatarão que esses eventos é que justificariam a Verdade, não eles. Onde estavam os escarnecedores de Jesus, quando Tito destruiu Jerusalém? Quanto aos escarnecedores que fizeram com que Mohammad fugisse de Makka, qual não foi a sua situação, quando ele voltou triunfante para ali, tendo eles de implorar por misericórdia – e ele lha concedeu! De acordo com o provérbio latino, Magnífica é a Verdade, que deve prevalecer.
  7. As pessoas vulgares cultuam falsos deuses, por causa do medo que têm que eles lhes causem danos, ou na esperança de que lhes dispensem alguns benefícios. Esses falsos deuses não podem fazer nem um, nem outro. Todo o poder, toda a beneficência está nas mãos do Único e Verdadeiro Deus. Tudo o mais é pretensão ou ilusão.
  8. A palavra Fitnat possui vários significados, partindo da idéia-raiz de "experimentar, testar"; ou seja, (1) um teste ou uma tentação, como nos versículos 102 da 2ª Surata; (2) problemas, tumultos, opressão, perseguição, como nos versículos 191, 193 e 217 da 2ª Surata; (3) discórdia, como no versículo 7 da 3ª Surata; (4) subterfúgio, uma escusa fundamentada na falsidade, como aqui. Outros significados serão notados, à medida que ocorrerem. Aqueles que blasfemavam sobre Deus, verão agora, a "nulidade" das suas imaginações.
  9. As mentiras que costumavam contar "sumiram" dos canais que costumavam ocupar, deixando os mentirosos em apuros. Ao negarem o indubitável fato de que acatavam falsos deuses, eles passam a admitir a falsidade de suas noções, e desse modo se condenam, por suas próprias bocas.
  10. De acordo com uma fidedigna tradição, este versículo foi revelado devido ao comparecimento de alguns idólatras à assembléia do Profeta, onde se recitava o Alcorão. Ouviram-no, mas nada entenderam. E quando lhes foi pedido que definissem o que o Profeta dizia, responderam: "Nada sabemos; vemo-lo apenas mover os lábios".
  11. Sua falsidade não é devida à carência de conhecimentos, mas à sua perversidade e egoísmo. Por isso, nem seu entendimento, nem seus ouvidos, nem seus olhos fazem adequadamente o seu trabalho. Eles distorcem tudo o que vêem, ouvem, o que lhes é ensinado, resultando que se aprofundam cada vez mais no lodo. A trapaça que costumam praticar sobre outras pessoas estará presente perante o Trono do Julgamento, sendo que ela aparecerá claramente perante os seus próprios olhos.
  12. Existem muitas evidências de missão divina do Mensageiro, bem como na Mensagem que ele recebeu. Se isto não fosse suficiente para convencer os incrédulos, não seria, acaso, vão, procurar por sinais nas entranhas da terra ou por uma visível ascensão aos céus? Se na avidez do Mensageiro em fazer com que sua mensagem fosse aceita por todos, ele ficasse magoado com o empedernimento deles, com a franca oposição e perseguição a ele, ser-lhe-ia dito que o pleno conhecimento do Plano Divino convencê-lo-ia que a impaciência era desaconselhável.
  13. Ser que ande sobre a terra; estão inclusos, nesta expressão, aqueles que vivem na água – peixes, répteis, crustáceos, insetos, bem como os quadrúpedes. Os alados são mencionados separadamente. Tair, que é comumente traduzido por "ave", compreende qualquer animal que voe, incluindo mamíferos, como os morcegos. Em nosso orgulho, nós talvez excluamos os organismos que vivem além da dimensão percebida por nós; contudo, saibamos que eles vivem uma vida social e individual, como nós próprios, e que toda a forma de vida está sujeira ao Plano e à Vontade de Deis. Em outras palavras, tudo obedece ao Seu Plano arquetípico, mesmo o Livro aqui mencionado. Todas as coisas são, em seus vários graus, correspondentes a Seu Plano (serão consagrados, no fim, ante seu Senhor).
  14. O limitado livre-arbítrio do homem faz uma pequena diferença. Se ele vir os sinais, mas tapar os ouvidos à verdadeira mensagem, e recusar-se (como um surdo) a falar dessa mensagem que toda a natureza proclama, então, de acordo com o Plano (de seu limitado livre-arbítrio), ele deverá sofrer e vagar, assim como, no caso oposto, receberia a diretriz e a salvação.
  15. A atribulação e o sofrimento deveriam (se os tomarmos adequadamente) tornar-se, para nós, as melhores dádivas de Deus. Através do sofrimento exercitamos a humildade, que constitui o antídoto para muitos vícios, e a fonte de muitas virtudes. Porém, se tomarmos o sofrimento com outra disposição, nos queixaremos; tornar-nos-emos pusilânimes, e Satanás terá a sua oportunidade de nos explorar, apresentando-nos os prazeres sedutores de suas futilidades.
  16. O castigo de Deus, para com os iníquos, constitui uma medida justiceira, para que sejam protegidas a verdade e a virtude de suas depredações, e para que se mantenham os Seus decretos justiceiros. Esse é um dos aspectos do Seu caráter, ao qual dá ênfase o epíteto "Acalentador dos Mundos".
  17. Aprendermos a verdade interior de nós mesmos e do mundo, evidencia um certo estágio avançado de sensibilidade e de desenvolvimento espiritual. Há um estágio mais superficial, no qual a prosperidade e as boas coisas da vida talvez despertem em nós a comiseração, a benevolência e a prestimosidade. Em tais casos, a Mensagem cria raízes. Porém, há um outro tipo de caráter, que se empertiga com a prosperidade. Para os desse tipo, ela constitui um teste, ou ainda uma punição, partindo de um elevado ponto de vista. Eles se aprofundam cada vez mais no pecado e dali são repentinamente retirados, e, então, ao invés de ficarem contristados, ficam meramente desesperados.
  18. Alguns dos coraixitas, ricos e influentes, pensavam que estivesse aquém da dignidade deles ouvir os ensinamentos de Mohammad, em companhia dos discípulos de baixas condições financeiras, que se reuniam em torno dele. Ele, porém, recusava-se a dispersar aqueles humildes discípulos, que sinceramente procuravam Deus. Partindo de um modo de ver terreno, eles nada tinham a ganhar de Mohammad, pois este era pobre, e ele igualmente nada tinha a ganhar com eles, pois que não tinham influência. Mas isso não constituía razão para que ele os mandasse embora; com efeito, a sua verdadeira sinceridade angariava-lhes precedência sobre os mundanos, no Reino de Deus, cuja justiça era vindicada na vida cotidiana de Mohammad, nisto, e em outras coisas. Se a sua sinceridade era, de algum modo, dúbia, isso não implicava em responsabilidade para o Pregador.
  19. Há, agora, um bom número de argumentos, postos à baila contra os maquenses, que se recusaram a crer na Mensagem de Deus. Cada argumento é introduzido pela expressão "Diz". Eis aqui os quatro primeiros: (1) eu recebi a luz, e a seguirei; (2) eu prefiro a minha Luz aos vossos vãos desejos; (3) quanto ao vosso desafio ("Se há um Deus, por que Ele não extermina de vez os blasfemos?"), não compete a mim levantá-lo; o castigo está nas mãos de Deus; (4) se estivesse em minhas mãos, competiria a mim levantar o vosso desafio; tudo o que sei é que Deus está familiarizado com a existência de insensatez e da iniqüidade, e com muitas outras coisas mais, que mortal algum pode saber; vós podeis divisar poucos lampejos do Seu Plano, mas podeis estar seguros de que Ele não tardará em chamar-vos a prestar contas.
  20. Anjos da guarda; muitos exegetas compreendem isto como tal. A idéia de guardar é expressa em um termo geral. Deus vela por nós e nos guarda, além de nos prover de todos os expedientes materiais, morais e espirituais, para que isso nos auxiliem em nosso crescimento e desenvolvimento, nos salvaguardem dos danos, e nos aproximem mais do nosso Destino.
  21. No tempo desta revelação, o povo do Mensageiro constituía-se como um corpo que não apenas rejeitava a verdade de Deus, mas ainda perseguia aqueles que a aceitavam. O dever do Mensageiro era dar a conhecer a sua Mensagem, coisa que ele fazia. Ele não era responsável pela conduta dos outros. Contudo, ele lhes dizia detalhadamente que todas as admoestações, provindas de Deus, tinham o seu limite de tempo, como eles logo constatariam. E, com efeito, eles o constataram, num espaço de poucos anos, de sorte que os líderes da resistência chegaram a um fim escabroso, e todo o seu sistema de fraude e egocentrismo foi destruído, dando lugar à mais pura fé do Islam. À parte desta aplicação particular, há a aplicação mais geral, para o presente e para todos os tempos.
  22. O argumento culmina com o que está aqui, e leva à enorme visualização de Abraão, o verdadeiro na fé, que não se detinha ante os assombros da natureza; passava "da natureza ao Deus da natureza". Deus não criou apenas os céus e a terra; com cada acréscimo de conhecimento nós vemos em que perfeitas proporções toda a Criação é mantida unida. As criaturas estão sujeitas à influências do tempo, mas não o Criador; Sua palavra é a chave que abre a porta da existência. Mas não se trata apenas do ponto de partida da existência, mas de toda a medida e padrão da Verdade e do Direito. Possivelmente, talvez existam, na nossa visão deste magnífico mundo, aberrações de vontades humanas, ou outras vontades; mas, no momento em que a trombeta soar para o derradeiro dia, o Seu Trono de julgamento restaurará, com perfeita justiça, os domínios do Direito e da Realidade. Porque o Seu conhecimento e a Sua sapiência compreendem toda a realidade.
  23. Agora aparece a história de Abraão. Ele viveu entre os caldeus, os quais possuíam enormes conhecimentos das estrelas e dos outros corpos celestes. Contudo, ele penetrou para além do mundo físico e divisou o mundo espiritual, este por detrás daquele. Seus ídolos ancestrais nada significavam para ele. Esse constituiu o primeiro passo. Mas Deus o elevou em muitos graus acima. Deus lhe mostrou, com veemência, as glórias espirituais por detrás das magníficas forças e leis do universo físico.
  24. Temos agora uma lista de dezoito Mensageiros, dividida em quatro grupos, compreendendo os grandes Mestres, aceitos entre os adeptos das três grandes religiões, baseadas em Moisés, Jesus e Mohammad. O primeiro grupo a ser mencionado é o de Abraão, com seu filho, Isaac, e o filho de Isaac, Jacó. Abraão foi o primeiro a receber um Livro. Este é mencionado no versículo 19 da 87ª Surata, embora tal Livro esteja agora perdido. Portanto, eles foram os primeiros a receber a Diretriz, em termos de um Livro.
  25. No segundo plano, temos os grandes fundadores de famílias, isoladamente de Abraão, a saber: Noé, do tempo do Dilúvio; Davi e Salomão, os verdadeiros estabilizadores da monarquia judaica; Jó, que viveu 140 anos, viu quatro gerações de descendentes, e no fim de sua vida foi abençoado com uma vasta riqueza agropecuária (Jó, 42:12 e 16); José, que foi Ministro de Estado no Egito, realizando ali grandes obras, e foi o progenitor de duas tribos; e Moisés e Aarão, os líderes do Êxodo do Egito para a Palestina. Eles viveram intensamente, e são denominados "praticantes do bem".
  26. O terceiro grupo consiste, não de homens, de ação, mas de Pregadores da Verdade, que levaram vidas solitárias. Seu epíteto é "os Virtuosos". Eles foram profetas místicos, e formam um grupo conexo, em torno de Jesus. Zacarias foi o pai de João Batista, o precursor de Jesus (versículos 37;41 da 3ª Surata). Jesus referiu-se a João como sendo Elias: "...ele mesmo é Elias, que há de vir" (Mateus, 11:14); e diz-se que Elias esteve presente, e que falou com Jesus, na Transfiguração, no Monte (Mateus, 17:3).
  27. Este é o derradeiro grupo, descrito como o daqueles "favorecidos acima das nações". Ele se constitui de quatro homens, e todos eles passaram por infortúnios, e foram envolvidos nas destruições das nações, permanecendo, contudo, na senda de Deus, surgindo, então, acima das ruínas delas. Ismael era o filho mais velho de Abraão; quando era um bebê, ele e sua mãe quase morreram de sede no deserto, ao redor de Makka; porém, eles foram salvos pelo poço de Zamzam, tornando-se ele o fundador da nova nação árabe. Eliseu (Al-yas’a) sucedeu ao Profeta Elias, que viveu em tempos atribulados para ambos os reinos judaicos (Judá e Israel); havia reis iníquos, com outras nações a pressioná-los; mas ele realizou muitos milagres, e algum revide foi dado ao inimigo, a conselho seu. A história de Jonas (Yunus) é bem conhecida; ele foi engolido por um peixe, ou baleia, mas foi salvo pela misericórdia de Deus; por causa da sua pregação, a sua cidade (Nínive) foi salva (versículo 98 da 10ª Surata). Lot era sobrinho e contemporâneo de Abraão; quando a cidade de Sodoma foi destruída, por causa da corrupção, ele foi salvo, como um homem justo (versículos 80-84 da 7ª Surata.
  28. Mãe das Cidades: Makka, agora a Alquibla (Diretriz) e o Centro do Islam. Não obstante este versículo ter sido revelado em Makka antes da Hégira, e antes que Makka tornasse a Alquibla do Islam, Makka era, em verdade, a Mãe das Cidades, estando tradicionalmente relacionada com Abraão e com Adão e Eva (ver versículos 125 e 197 da 2ª Surata). E todas as cidades circunvizinhas, significaria: "todo o mundo", caso considerássemos Makka como o Centro.
  29. Algumas das várias idéias relacionadas com a "criação" estão anotadas na nota do versículo 117 da 2ª Surata. Se o corpo do homem foi criado do barro, ou seja, de matéria terrestre, houve um processo primitivo de criação de tal matéria. Aqui, o corpo é deixado de lado, sendo a alma trazida a foco. A alma passou por vários processos de modelagem e adaptação à suas várias funções em seus vários ambientes (versículo 7-9 da 32ª Surata). Porém, cada alma, em particular, depois de deixar o corpo, volta à forma com que foi criada, com nada mais do que sua história – "com as obras que realizou"- , a qual faz parte integrante dela. Qualquer coisa exterior, dada como ajutório para o seu desenvolvimento – "tudo quanto vos concedemos"- deverá, necessariamente, ser deixada de lado, não obstante ela ter-se orgulhado dela. Estas coisas exteriores poderão consistir de coisas materiais, por exemplo, riqueza, propriedades, sinais de poder, influência e causas de orgulho, como filhos, parentes e amigos etc., ou coisas intangíveis, como talento, intelecto etc..
  30. No mar, ou nos desertos, ou nas selvas, ou nas desesperadas cenas fantasiosas, sempre que perquirimos as imensidões dos espaços, são as estrelas que atuam como nossos guias, justamente como o sol e a lua, que já foram mencionados, como servindo de cômputo para o tempo.
  31. Nossa alegoria leva-nos, agora, para a maturidade, para o fruto, para a colheita, para a vindima. Por meio da semente nós surgimos, do nada para a vida; vivemos a nossa vida cotidiana de descanso e trabalho, e passamos o marco do tempo; tivemos a experiência mental de atravessar vastos espaços, no mundo espiritual, guiando-nos, em nosso rumo, pela estrela da fé; crescemos, e estamos prontos para a colheita ou vindima! Assim será com o homem, se ele produzir os frutos da fé!
  32. Cada fruto – sejam uvas, olivas ou romãs – parece ser igual, em seu tipo, e, contudo, cada variedade é diferente em sabor, consistência, forma, tamanho, cor, no suco ou no óleo neles contidos, proporção de sementes que frutifica etc.. Em cada variedade, o indivíduo poderá ser diferente. Aplique-se a alegoria ao homem, cujo variado fruto espiritual poderá ser igualmente diferente e, no entanto, igualmente valioso.
  33. Jinns (Gênios): Quem são eles? No versículo 50 da 18ª Surata, é-nos dito que Iblis (Lúcifer) era um dos Jinns, dando a entender que foi por isso que ele desobedeceu à ordem de Deus. Contudo, naquela passagem e em passagens semelhantes, é-nos dito que Deus ordenou aos anjos que se prostrassem perante Adão, coisa que eles fizeram, menos Iblis. Isso implica em que Iblis havia feito parte da companhia dos anjos. Em muitas passagens fala-se concomitantemente de gênios e de homens. Nos versículos 14-15 da 55ª Surata, é relatado que o homem foi criado do barro, ao passo que os gênios foram criados de uma chama de fogo. O significado da raiz de janna, yajinnu, é: "ser coberto ou escondido", e com o verbo na voz ativa, significa: "cobrir ou esconder", como no versículo 76 desta surata. Algumas pessoas dizem que jinn, portanto, significa as qualidades ou capacidades ocultas do homem; outras, que significa seres dos ermos ou da selva, ocultos nos montes ou nas touceiras. Não desejamos ser dogmáticos, mas achamos, por um confronto e estudo das passagens alcorânicas, que o significado simples é "um espírito" ou uma força invisível ou oculta. Em histórias romanescas de folclore, como em As Mil e Uma Noites, eles foram personificados com formas fantásticas, mas não é da nossa alçada desenvolver isso aqui.
  34. As principais tarefas com que se depara o dileto de Deus são: observar de perto quaisquer desses fatores que possam promover os elevados fins; tentar purificar aqueles que têm sido mal empregados; introduzir novas idéias e novas maneiras de ver as coisas; e combater o que for errado e não puder ser corrigido; tudo isto com o propósito de conduzir a verdade e deixar entrar a luz espiritual aonde antes só havia trevas. Se isto não for feito com a discrição e a tenacidade de um Mestre espiritual, talvez haja não apenas a reação da obstinação, mas também uma indecorosa mostra de desonra ao verdadeiro Deus e à Sua Verdade, podendo a dúvida espalhar-se entre os irmãos mais fracos cuja fé seja superficial e afeita a ser abalada. O que acontece com os indivíduos pode acontecer coletivamente com as nações e os grupos de pessoas. Em sua obsessão, esses grupos poderão pensar que suas próprias idéias são as certas. Deus, em Sua infinita compaixão, os tolera, e pede àqueles que têm idéias mais puras acerca da fé, que não difamem a fraqueza do seu próximo, a menos, é claro, que este difame a verdade real, e torne a questão ainda pior do que antes. Porquanto haja erros, Deus perdoará e enviará a Sua graça, a fim de evitar a ignorância e a insensatez. Porquanto existia o mal ativo, Deus tratará com ele à Sua própria maneira. Certamente, o virtuoso não há de esconder a sua luz sob uma capa, ou se comprometer com o mal, ou recusar-se a viver uma vida correta, quando tem o meio para isso – o conhecimento.
  35. Se os incrédulos estão meramente obstinados, nada os fará retratarem-se. Não há história mais farta de milagres do que a história de Jesus. Contudo, nessa mesma história, é-nos dito que Jesus disse: "Esta geração perversa e adúltera pede um prodígio; e não se lhe dará outro prodígio, senão o prodígio do Profeta Jonas"(Mateus, 16:4). Há sinais, propiciados por Deus, todos os dias – compreendidos por aqueles que crêem. Uma mera insistência sobre sinais particulares ou especiais significa pura contumácia e incompreensão quanto ao mundo espiritual.
  36. A graça de Deus está sempre pronta a evitar a fraqueza ou ignorância do homem, a aceitar o arrependimento e a conceder o perdão. Porém, quando o pecador se mostra em virtual rebeldia, é-lhes dado corda, e será sua própria culpa se ele tatear distraidamente ao léu, sem qualquer esperança certa ou refúgio.
  37. Um grupo de idólatras de Makka pediu ao Profeta que fizesse aparecer os anjos – para testemunharem que ele era o Mensageiro de Deus – ou que ressuscitasse alguns mortos, para que pudessem inquiri-los sobre a sua veracidade. Todavia, os mais estupendos milagres, mesmo de acordo com as suas idéias, não os teriam convencido. Se todo o aparato do mundo espiritual fosse colocado à frente deles, não teriam crido, porque, por sua livre escolha e vontade, recusam o conhecimento e a fé.
  38. Os virtuosos não buscam nenhum outro padrão de julgamento que não seja a Vontade de Deus. Como poderão fazê-lo quando Deus, em Sua graça, tem explicado a Sua Vontade com detalhes, no Alcorão, o qual os homens de todas as capacidades podem entender? Com ele o mais humilde pode aprender lições de conduta reta na vida cotidiana, e o mais avançado poderá encontrar a mais elevada sapiência, em seu ensinamento espiritual, enriquecida por todas as espécies de magníficas metáforas, tiradas da natureza e da história do homem.
  39. Eis aqui uma alegoria ao benevolente, com sua missão divina, e ao malevolente, com sua missão maligna. O primeiro, antes de adquirir a sua vida espiritual, estava como que morto. Foi a graça de Deus que lhe concedeu a vida espiritual, com uma Luz com a qual ele pudesse dirigir seus próprios passos, bem como os passos daqueles que querem seguir a luz de Deus. O oposto constitui-se daqueles os que odeiam a luz de Deus, que vivem nas profundezas das trevas, e que tramam e se entocaiam contra tudo o que é bom. Poderão equiparar-se, mesmo por um momento, estes dois tipos? Pode acontecer que a liderança, em todos os centros populacionais, esteja nas mãos de homens maus. Contudo, os bons não deverão ficar desencorajados. Estes deverão obrar em virtude, e concluir a sua missão.
  40. Além dos ensinamentos das palavras de Deus, e dos ensinamentos do mundo de Deus, da natureza, da história e dos contatos humanos, muitos outros sinais chegam aos diletos de Deus, que os recebem humildemente, e tentam compreendê-los; e muitos sinais também chegam aos incrédulos, na forma de admoestação ou equivalente, os quais eles não levam em consideração, ou deliberadamente rejeitam. Porém, a obra de Deus estará sempre de acordo com a Sua própria Vontade e Seu próprio Plano, e não de acordo com os desejos e caprichos dos incrédulos.
  41. O Plano Universal de Deus é o cadhá-wa-cadar, que é muito mal compreendido. Esse Plano é inalterável, e essa é a Sua Vontade. Isto quer dizer que no mundo espiritual, bem como no material, existem leis de justiça, de misericórdia, de graça, de castigo, etc., que funcionam tão seguramente como qualquer outro instrumento que conheçamos. Se, então, o homem se recusar a aceitar a Fé, tornar-se-á rebelde e, a cada passo, abater-se-á cada vez mais, com a aceleração do seu movimento regular. Quase não será capaz de tomar a respiração espiritual, a ponto de sua recuperação – a despeito da misericórdia de Deus, que ele rejeitara – tornar-se tão difícil, como se tornaria a sua ascensão aos céus. Por outro lado, o devoto achará, a casa passo, mais fácil o próximo.
  42. Os estudos científicos modernos provam que quanto mais o homem se eleva na atmosfera, mais difícil se torna a sua respiração pelo nariz. Ao alcançar a altura de 360 m, só poderá respirar pela boca; continuando a elevar-se, chegará o momento em que será totalmente impossível respirar.
  43. Eternidade e infinidade são termos abstratos. Não possuem significado especial em nossa experiência humana. A qualificação "salvo para quem Deus quiser" torna-os mais inteligíveis, à medida que formemos alguma idéia – conquanto inadequada – de uma Vontade e de um Plano, e conheçamos a Deus por Seus atributos de Misericórdia e de Justiça.
  44. Os iníquos desposam os iníquos, por causa das suas barganhas mútuas. Porém, ao agirem assim, eles livram os virtuosos de tentações piores.
  45. Deus é independente de nossas orações ou serviços. É de Sua misericórdia que Ele deseje o nosso bem. Qualquer raça ou povo a quem Ele conceda as suas chances deve entender que o seu fracasso não o afeta; Ele poderia criar outros povos em seus lugares, como fez em tempos passados, e como está fazendo nos nossos próprios dias, caso tenhamos olhos para ver.
  46. Aqui há sarcasmo mordaz do mais alto teor, que passou desapercebido a alguns exegetas. Os idólatras geralmente têm um enorme Panteão, embora, afora isso, possuam uma vaga idéia de um Deus Supremo. Porém, os bens materiais vão para as deidades, os "parceiros" fantasiosos de Deus, porquanto estes têm templos, sacerdotes, oferendas, etc., ao passo que o Verdadeiro e Supremo Deus tão-somente recebe cultos verbais ou, quando muito, uma parcela, junto aos inúmeros "parceiros". E era assim também na Arábia. Os quinhões designados para os "parceiros" iam para os sacerdotes e para os sequazes dos "parceiros", que era muitos, e reivindicadores de seus direitos. O quinhão designado a Deus ia, possivelmente, para os pobres, porém, mais provavelmente ia, para os sacerdotes, que mantinham o culto dos "parceiros", já que o Supremo Deus não tinha, em separado, Seus próprios sacerdotes. Deus criou todas as coisas; como poderia ter Ele um quinhão?
  47. Era de se supor que os falsos deuses e ídolos – entre muitas nações, incluindo a árabe – requeressem sacrifícios humanos. Comumente, tais sacrifícios são revoltantes ao homem, mas saiba-se que eles eram "tentadores", pelo costume dos idólatras, o qual falsamente reivindicava o título de religião. Tal costume, se adotado, nada mais fazia do que destruir espiritualmente as pessoas que o praticavam, além de transformar a religião num confuso acervo de superstições revoltantes.
  48. O tabu, quanto a certas comidas, constitui, às vezes, um instrumento dos sacerdotes para reservarem para si coisas especiais. Isso deve ser reforçado pela pretensão de que a proibição, para os outros, ocorre pela vontade de Deus. Isso constitui uma mentira ou invencionice quanto a Ele. Constituem-no, também, as superstições, em sua maioria.
  49. As reses dedicadas aos deuses pagãos deveriam ser poupadas de todo o trabalho útil; nesse caso, tornavam-se um peso morto para a comunidade, e causavam, além disso, uma porção de danos aos campos e às colheitas.
  50. Estas são as superstições idólatras mais absurdas. Algumas já apareceram no versículo 103 da 5ª Surata, o qual deve ser consultado, juntamente com a respectiva nota.
  51. Refere-se aos costumes dos árabes anteriores ao Islam, que enterravam vivas as filhas e sacrificavam aos ídolos.
  52. A superstição acaba com a verdadeira religião. Voltemos às superstições dos árabes idólatras acerca das reses para a alimentação. Os cavalos não são mencionados, porquanto a carne do cavalo não fazia parte da dieta, e não havia superstições sobre ela. Ovelhas e cabras, camelos e bois, eram a fonte comum de carne. As ovelhas e as cabras não eram empregadas como bestas de carga, mas os camelos (de ambos os sexos) eram usados no transporte de carga, e os bois no arado, embora as vacas fossem principalmente utilizadas para leite e dar carne. A frase "Ele criou para vós animais de carga, e outros para o abate" não diferencia todas as espécies, mas evidencia as primeiras e as últimas categorias.
  53. As superstições, referidas no versículo 130, acima, são mais ridicularizadas neste versículo seguinte.
  54. Sangue fluente: distinto do sangue aderente à carne, ou o fígado, ou qualquer outro órgão interno que purifica o sangue.
  55. A palavra Zufur pode significar garra ou casco; ela está no singular; porém, como nenhum animal possui somente uma garra, e não há pontos de interrupção nas garras, devemos considerar o casco, para uma correta interpretação. Segundo a lei judaica, "Tudo o que tem unhas fendidas, e a fenda das unhas divide em duas, e remói, entre os animais, aquilo comereis, destes porém não comereis, dos que remoem ou dos que têm unhas fendidas: o camelo, que remói mas não tem as unhas fendidas; este vos será imundo; e o coelho, porque remói mas não tem as unhas fendidas, este vos será imundo. E a lebre, porque remói, mas não tem as unhas fendidas, esta vos será imunda." (Levítico, 11:3-6). Portanto, "animais solípedes" seria a interpretação correta. Estes três animais, conquanto ilícitos para os judeus, são lícitos para os muçulmanos. Comparar com o versículo 160 da 4ª Surata.
  56. A Revelação a Moisés se reportava aos detalhes da vida das pessoas, servindo assim de guia prático para os judeus e, depois, para os cristãos. Confessadamente, a Mensagem do Islam, como se encontra no Alcorão, constitui o próximo guia completo, em relação ao tempo, depois da de Moisés.
  57. Porque os diligentes estudos do anterior Povo do Livro foram feitos em linguagem desconhecida ao recém-formado Povo do Islam, ou porque os membros daquele povo haveriam de deparar-se com circunstâncias diferentes das deste, no novo mundo pós-islâmico.
  58. Ou seja, o Alcorão, a vida e os ensinamentos de Mohammad, o Mensageiro de Deus.
  59. Novamente a doutrina da responsabilidade pessoal. Nós próprios somos responsáveis por nossos atos; não podemos transferir as conseqüências para ninguém mais. Nem tampouco ninguém poderá expiar vicariamente os nossos pecados. Se, honestamente, as pessoas têm dúvidas ou desentendimentos sobre questões importantes quanto à religião, não devem dar início a disputas fúteis. Tudo será esclarecido no fim. Nosso mister, aqui, é mantermos a unidade e a disciplina, e cumprirmos com o dever com que nos deparamos.
  60. Comparar com o versículo 30 da 2ª Surata, e respectiva nota, onde traduzimos a palavra Khalifa por "legatário", sendo do Plano de Deus tornar Adão (como representante da humanidade) e Seu legatário na terra. Uma outra idéia implícita em Khalifa é a de "sucessor, herdeiro", isto é, aquele que tem direito prioritário à posse (a quem um testamento em vida foi concedido pelo possuidor), depois que este morreu. No versículo 23 da 15ª Surata aparece a notável palavra "Herdeiro" (com "h" maiúsculo – Wáriçun), aplicada a Deus: "Somos Aquele que dá a vida e a morte, e somos o Único Herdeiro de tudo." A mesma idéia ocorre no versículo 180 da 3ª Surata, onde há que ver a respectiva nota. Aqui, a tradução tenta expressar ambas as idéias, as quais entendemos, partindo do original.
 

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