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  1. Ver a nota do versículo 1 da 2ª Surata.
  2. Esta surata se relaciona com a Sabedoria, e o Alcorão é chamado de o Livro Sábio, ou de o Livro da Sabedoria. No versículo 12, adiante, há uma referência a Lucman, o Sábio. "Sábio", neste sentido (Hakim), não se refere apenas a um homem versado no conhecimento humano e divino, mas também àquele que desenvolve, na conduta prática (‘amál), o curso certo da vida até os limites de sua força. Seu conhecimento é correto e prático, mas não necessariamente completo, pois o homem não é perfeito. Esse ideal envolve a concepção de um homem de ação heróica, bem como um profundo e laborioso conhecimento da natureza humana e da própria natureza – não meramente sonhos ou especulações. Esse ideal se evidenciou em notabilíssimo grau, no Mensageiro do Islam e no Livro Sagrado, que foi revelado por meio dele. "Livro Sábio" (Kitab-il-hakim) é um dos títulos do Alcorão.
  3. A vida é tomada a sério por homens que se conscientizam das injunções convenientes a ela. Mas há homens de mentalidades frívolas, que preferem ouvir contos ociosos, a ouvir as verdadeiras Realizações; a estes são, com justiça, aqui censurados. No tempo do Profeta do Islam havia um certo pagão, Nadhr Ibn Al-Haris, que preferia ouvir os romances persas a ouvir a Mensagem de Deus, e com isso desviava muitos ignorantes dos ensinamentos da Palavra de Deus.
  4. Tais homens se comportam como se nada tivessem ouvido de muita importância, e riem-se dos ensinamentos sérios. A perda será deles. Perderão todas as cosias elevadas da vida, e ficarão fora do alcance das bênçãos de Deus.
  5. Note-se a mudança de pronome, neste estágio do versículo. Antes, falou-se de Deus na 3ª pessoa, "Ele", e os citados atos da criação eram aqueles que, em sua maioria, foram completados quando o universo, como o vemos, passou a existir, embora a sua lenta evolução continue. Depois, Deus fala na 1ª pessoa, "Nós", o plural de majestade, como foi explicado antes (ver a nota do versículo 38 da 2ª Surata); e os processos citados são aqueles que acontecerão continuamente perante nós, como é o caso da precipitação da chuva e do crescimento do reino vegetal. De algum modo, a criação dos céus e da terra, e da vida animal., pode ser considerada impessoal ao homem, ao passo que o processo da queda da chuva e da vegetação tem uma especial relação pessoal com ele.
  6. Lucman, o Sábio, de quem esta surata tira o nome, pertence à tradição árabe. Muito pouco é sabido de sua vida. Ele está costumeiramente associado à vida longa, sendo o seu tútulo Moammar (o longevo). Ele é colocado por alguns na época do povo de Ad, para o quê ver a nota do versículo 65 da 7ª Surata. Ele representa o tipo da sabedoria perfeita. Diz-se que, pertencendo a uma humilde camada da sociedade, sendo um escravo ou um carpinteiro, recusou o poder terreno e um reino. Muitos apólogos instrutivos, similares à Fábulas do Esopo, da tradição grega, são creditados a ele. A identificação de Lucman com Esopo não tem fundamento histórico, embora seja verdade que as tradições sobre eles tenham influenciado uma a outra.
  7. Lucman é tido como o padrão de sabedoria, porque realizou o máximo neste mundo, com uma vida sábia, baseada na mais alta esperança da vida íntima. Para ele, como no Islam, a verdadeira sabedoria humana é também sabedoria divina; as duas não podem estar separadas. O princípio de toda a sabedoria, portanto, consiste na conformidade com a Vontade de Deus (versículo 12 desta surata). Isso significa que devemos entender as nossas relações com Ele, e adorá-Lo como se deve (versículo 13). Então, devemos ser bondosos para com a humanidade, a começar pelos nossos pais (versículo 14). Porque os dois deveres não são diferentes, mas um só. Quando eles parecem estar em conflito, há algo de errado com a vontade humana.
  8. O conjunto de dentes de elite de uma criança humana é completado com a idade de dois anos, que é o natural e extremo limite para a amamentação. Na nossa vida espiritual a duração é bem maior.
  9. Os versículos 14-15 não são a fala direta de Lucman, mas acontecem por meio do comentário dos seus ensinamentos. Ele falava como um pai ao seu filho, e não podia, de modo claro, pedir respeito para si mesmo, e atrair a atenção do filho para as limitações da obediência filial. Deve-se supor que estes versículos sejam diretrizes gerais, advindas dos ensinamentos de Lucman aos homens, e não dirigidos a seu filho; embora, em ambos os casos, uma vez que Lucman adquirira de Deus a sabedoria, sejam os princípios divinos os enunciados.
  10. A semente de mostarda é uma coisa proverbialmente pequena, diminuta, uma coisa por cima da qual as pessoas, costumeiramente, passam. Mas não Deus. Dá-se muita ênfase ao fato de se supor que a semente de mostarda esteja escondida por baixo de uma rocha, ou esteja perdida na espaçosa imensidão da terra ou dos céus. De Deus tudo é conhecido, e Ele dá conta disso.
  11. O "meio-termo" ou a "moderação" é o pivô da filosofia de Lucman, assim como o é da filosofia de Aristóteles, e também do Islam. E isso flui, naturalmente, de uma verdadeira compreensão da nossa relação com Deus, com o Seu universo e com os nossos semelhantes, especialmente o homem. Em todas as coisas, diz ele, sê moderado. Não apertes o passo, e não sejas moroso ou fiques estacionário. Não sejas falador, nem calado. Não sejas espalhafatoso, nem tímido. Não sejas mui confiante, nem te acovardes. Se tiveres paciência, ser-te-ão dadas constância e determinação, para que bravamente enfrentes as porfias da vida. Se tiveres humildade, isso será para salvaguardar-te da indecorosa jactância, e não para refrear-te o espírito correto, ou a determinação racional.
  12. A tais homens falta conhecimento, uma vez que não fazem uso dos seus intelectos, mas deixam-se levar por suas paixões; falta-lhes diretriz, uma vez que são impacientes e descontrolados; e os frutos da revelação ou da introspeção espiritual não os alcançam, uma vez que rejeitam a Fé e a Revelação.
  13. "Palavras de Deus"; Seus maravilhosos Sinais e Mandamentos são infinitos, e não poderiam ser expressos, mesmo que todas as árvores fossem transformadas em lápis, e todos os oceanos, multiplicados por sete, fossem transformados em tinta. Qualquer Livro da Sua Revelação trataria de assuntos que o homem poderia entender, e usar em sua vida; há mistérios sobre mistérios, que o homem jamais poderá imaginar. Nem tampouco qualquer louvor que pudéssemos escrever, com recursos infinitos, seria adequado para descrevermos o Seu Poder, a Sua Glória e Sabedoria.
  14. A grandiosidade e a infinitividade de Deus são tais, que Ele pode criar não apenas toda uma massa, mas cada alma individual, e pode-lhe seguir a história até ao Dia do Juízo Final. Isto não apenas mostra a glória, a onisciência e a onipotência de Deus; mostra também o valor de cada alma individual aos Seus olhos, e eleva a responsabilidade individual, quanto à relação com Ele.
  15. Comparar com o versículo 61 da 22ª Surata, e respectiva nota. Mesmo que pudéssemos formar uma concepção da infinitividade de Deus, pelos Seus tratos com cada indivíduo da Sua criação, como no versículo 28 acima, isso seria ainda inadequado. Que é um indivíduo? Que representa a sua relação com as Leis universais de Deus? Na natureza exterior, nós podemos ver que não há uma linha definida entre a noite e o dia; uma se mescla com o outro. Todavia, o sol e a lua obedecem a leis definidas. Embora eles pareçam eternos, saiba-se que a sua duração e existência não são mais do que uma fração de tempo no imenso universo de Deus. Quanto amalgamação e imperceptível gradação há ainda no mundo espiritual interior? Nossas próprias ações não podem ser classificadas, etiquetadas e rotuladas, quando examinadas em relação aos motivos e às circunstâncias. No entanto, são um livro aberto para Deus.
  16. A questão do Conhecimento ou Mistério governa ambas as cláusulas aqui, a saber: a chuva e os ventres. De fato, governa as cinco coisas mencionadas neste versículo (1) a hora; (2) a chuva; (3) o nascimento de uma nova vida (ventres) ; (4) a nossa vida física do dia a dia; (5) a nossa morte. Com respeito à chuva, é-nos pedido que contemplemos como e quando ela cai. A umidade é sugada pelo calor do sol no Mar Arábico, ou no Mar Vermelho ou no Oceano Índico, perto da África Oriental, ou na região lacustre, na África Central. Os ventos a levam para aqui e para ali, por entre milhares de quilômetros, ou pode ser que se trate de uma curta distância. "O vento sobre onde quer". Sem dúvida, ele obedece a certas Leis físicas estabelecidas por Deus; mas veja-se como essas Leis estão entrelaçadas, umas com as outras! A meteorologia, a gravidade, a hidrostática e a dinâmica, a climatologia, a higrometria, e uma dezena de outras ciências e outros fenômenos são empregados, e ninguém pode, completamente, ser senhor de todos eles; e, contudo, isto se relaciona apenas a uma dos milhões de facetas da natureza física, que são governadas pelo Conhecimento e pela Lei de Deus. Todo o reino vegetal é primordialmente afetado pela chuva. A menção do ventre nos traz o mistério da vida animal, a embriologia, o sexo, e um milhão de outras coisas. Quem pode dizer – tão-somente no caso do homem – se a criança concebida é menino ou menina, por quanto tempo permanecerá no ventre, se nascerá viva, que espécie de indivíduo será – uma bênção ou uma maldição par aos pais e, para a sociedade?
  17. "Ganhar", aqui, como em outros lugares, não apenas significa "ganhar a vida", no sentido material, mas também colher as conseqüências (boas ou más) da conduta, de um modo geral. A sentença inteira, praticamente significa: "Ninguém sabe o que o amanhã lhe trará".
 

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